
“O lago é lindo, mas daqui eu volto. Pela nossa amizade, abri uma exceção e visitei este parque com você”, disse minha amiga e anfitriã, Daniela. Estávamos no lago Walden, um parque estadual localizado em Concord, Massachusetts. Entretanto, mais conhecido como o local onde durante dois anos morou Henry Thoreau, filósofo e naturalista, que queria testar sua capacidade e suas reações durante a estada solitária, vivida numa casa construída com as próprias mãos, dentro da floresta. Daniela tem um problema político com o parque. Não com Thoreau, por quem certamente tem simpatia, mas com as regras atuais do local, que impedem essa amante e ativista pelos animais de passear com Frida, Gepeto e Lola, seus cães, de quem é inseparável.
Me vi, então, sozinho. Só restava explorar as redondezas do lago. A visão foi bela, como mostram as fotos abaixo. O céu estava límpido e o sol refletia nas águas geladas de Walden. Logo entrando na trilha, avistei três homens pescando no gelo, apesar da enorme placa alertando para o perigo desta atividade. De fato, o gelo parecia fino e se quebrasse, a queda na água poderia ser fatal.

O perímetro do lago é de 2,7 quilômetros. Todo ele é cercado por uma bem cuidada trilha. No verão, o lugar é popular, frequentado por multidões e o parque oferece aulas de natação para crianças. Mas nesse fevereiro gélido, sou um dos poucos a circundá-lo. A floresta em torno está seca e o chão coberto por sua folhagem.
Na água, a neve, o gelo e os reflexos do sol dançavam sobre a superfície de Walden. Havia pontos completamente brancos, onde a neve se acumulou. Em outros, o vento usou-a para desenhar o que, de longe, pareciam ondas, mas era apenas o resultado das rajadas de ar que intercalavam neve e gelo. Em outros pontos, o gelo era tão fino que a água parecia ondular e se mover.
Minha ansiedade era encontrar a casa de Thoreau, apontada no mapa da entrada da trilha. Depois de andar cerca de 20 minutos, comecei a achar que tinha passado por ela sem vê-la. Felizmente, cruzei com outro visitante, uma senhora amável, que apontou uma curva um pouco mais adiante.
Minutos depois, encontrei o local onde viveu Thoreau. Não há mais casa, apenas suas ruínas: uma pilha de pedras. Embora a primeira reação tenha sido de decepção, a decisão pareceu acertada. O livro foi publicado em 1854. Por que manter uma espécie de Disneylândia, reconstruindo uma cabana erguida em meados do século 19? Além das pedras, guarda o local uma placa com uma das mais famosas citações de Thoreau:
Não queria viver o que não era vida, tão caro é viver; e tampouco queria praticar a resignação, a menos que fosse absolutamente necessário. Queria viver profundamente e sugar a vida até a medula, viver com tanto vigor e de forma tão espartana que eliminasse tudo aquilo que não fosse vida, recorta-lhe um largo talho e passar-lhe rente um foice, acuá-la num canto e reduzi-la a seus termos mais simples e, se ela se revelasse mesquinha, ora, aí então eu pegaria sua total e genuína mesquinharia e divulgaria ao mundo essa mesquinharia; ou, se fosse sublime, iria saber por experiência própria, e poderia apresentar um relato fiel…
Leia também
Na estação de lixo em Massachusetts, bacana dispõe do próprio lixo
Uma casa sustentável perdida entre a neve
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
PEC do Marco Temporal reacende reação de organizações indígenas no Congresso
Entidade indígena afirma que retomada da proposta contraria decisão do STF e pode ampliar conflitos fundiários no país →
Descoberta nas alturas: caranguejo é encontrado a mais de 1.700 metros de altitude
Descoberta da espécie de crustáceo revela, com ela, todo um novo gênero de caranguejos de água doce no Parque Nacional do Pico da Neblina, no Amazonas →
Força-tarefa desarticula pistas clandestinas do narcotráfico no interior do Amazonas
Estruturas usadas para transporte aéreo de drogas foram destruídas em Novo Airão, Careiro e Maués durante operação integrada de segurança →

