Reportagens

Churrasco de eucalipto

Com incentivos do governo, empresas de papel e celulose invadem o tapete verde dos pampas com seus eucaliptais. Alguns ecologistas preferem a pecuária.

Carlos Matsubara ·
1 de abril de 2005 · 17 anos atrás

Se for preciso, eu volto a ser caudilho
Por essa pampa que ficou pra trás
Porque eu não quero deixar pro meu filho
A pampa pobre que herdei de meu pai

O pampa é um belo cartão-postal do Rio Grande do Sul. Sua imagem está presente na literatura e na música. O símbolo dele é a gauchada andando solta a cavalo, lá pelos lados de Bagé. Mas foram-se os bons tempos e o pampa anda empobrecido e ameaçado.

É que aquele pampa idílico está sendo todo furado por florestas de eucaliptos. Culpa de uma coisa que a maioria dos nativos não entende: a economia de mercado. Um vasto projeto de cultivo florestal abençoado pelo governo está se desenvolvendo nos últimos anos. Mas segundo alguns ambientalistas ele está crescendo de um jeito que ameaça a pecuária tradicional e sua poluição zero.

Quem primeiro detectou a mudança do perfil de ocupação da terra não foi nenhum estatístico, mas a banda Engenheiros do Hawaii, portoalegrense da gema, autora dos versos acima. Na geografia, o pampa é a parte do sul do estado, ondulações suaves, altura máxima de 500 metros acima do mar, uma “imensidão erma”, na expressão do poeta Alcydes Maia, um dos seus. As cidades dentro dele fazem um triângulo do Chuí a Uruguaiana, com Bagé no coração. E é na Bagé do gado e das vastas pastagens que estão previstos os maiores projetos de reflorestamento.

Entre os estudiosos da economia vigora a imagem de pobreza do povão pampeano. A população, outrora de bombachas, agora é feita de plantadores de cebola e arroz, gente de bermuda e chinelo de dedo. É com estas cores que começa a entrar na foto o plantio do eucalipto. Por 30 anos ele veio crescendo de forma lenta, gradual e segura. Estima-se que em outros 20 ele terá mudado de vez o panorama dos pampas.

O governo do Estado financia projetos através do Proflora, com recursos da Caixa Econômica via BRDE, o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul. Já foram aprovados 156 projetos de plantio e outros 100 estão em análise. Os técnicos estão convencidos de que o eucalipto é a melhor alternativa econômica para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul – e a discussão está apenas começando.

“Temos terra, temos clima, tecnologia e tudo o mais para ser um grande produtor de madeira e derivados”, empolga-se Floriano Isolan, diretor da Caixa Econômica no Estado e ex-secretário de Agricultura. O contraponto é assumido por ONGs como o Núcleo Amigos da Terra (NAT), que já se posicionou “radicalmente contra a monocultura do eucalipto”. O NAT, que faz parte da Rede Mundial contra o Deserto Verde, acredita que os mega-projetos da Aracruz e da Votorantim Celulose e Papel na região são insustentáveis do ponto de vista ambiental.

A Votorantim começou em 2004 a implantação de grandes florestas de eucalipto na região entre Pelotas e Bagé. Parte do investimento inicial de R$ 100 milhões foi aplicada na compra de 40 mil hectares de terras em municípios como Canguçu, Encruzilhada do Sul, Pinheiro Machado e Piratini. Outra parte foi gasta em Capão do Leão, na formação de um grande viveiro de mudas capaz de atender às necessidades da própria empresa e também de sitiantes dispostos a se tornar fornecedores de madeira para a fábrica de celulose e papel a ser implantada na região. Denominado “Poupança Florestal”, o programa de fomento da Votorantim é semelhante ao criado pela Aracruz no Espírito Santo, em 1990. A Aracruz, por sinal, anunciou recentemente a disposição de construir outra fábrica no Rio Grande do Sul, onde adquiriu, em 2003, a Riocell, de Guaíba.

Káthia Vasconcelos, do Núcleo Amigos da Terra, entende que a solução para o desenvolvimento da região sul seria o manejo integrado de culturas, em especial da pecuária. “A pecuária é tradicional do Pampa e a alternativa mais saudável do ponto de vista ambiental e econômico”. Para o governador Germano Rigotto, não os novos projetos não causarão conflitos. “Os plantios de florestas devem e serão realizados em perfeita harmonia com outras espécies, e as culturas tradicionais do gaúcho serão incentivadas”, afirma Rigoto.

Uma voz moderada é a de Lara Lutzenberger, presidente da Fundação Gaia e filha do falecido José Lutzenberger, ícone do ambientalismo gaúcho nos anos 70. Ela lembra que, para o pai, o bicho não era tão feio como pintam. “A Fundação Gaia realizou diversas experiências e pesquisas com o eucalipto convivendo com outras espécies e os resultados foram ótimos”. Mas Lara faz um apelo por políticas públicas que regulem e fiscalizem os projetos futuros para que não acarretem prejuízos ambientais. Para ela a silvicultura é a solução da lavoura, desde que realizada levando em conta aspectos ecológicos e paisagísticos.

Auro Campi de Almeida, PhD em Manejo de Recursos e Ciências Ambientais pela Universidade da Austrália, fecha o leque do debate. Ele pesquisou a biodiversidade eucaliptiana por 10 anos em uma microbacia da Aracruz Celulose. A área tem 286 hectares, sendo 189 de eucalipto e 89 de floresta nativa. Ali foi registrada a ocorrência de 204 espécies de aves. Destas, 85 usavam os recursos da floresta de eucalipto e os da mata nativa, sem distinção. Segundo o pesquisador, “o mais importante é que a curva de acumulação de espécies é igualável àquela de outras áreas de florestas tropicais da América do Sul e Central”. Ou seja, apesar de monocultura, o eucaliptal tem um quê de floresta, e por isso não merece ser demonizado por ambientalistas.

A questão é como fazer para que suas compridas estacas não varram do mapa e da história a imensidão erma dos pampas gaúchos.

* Carlos Matsubara é paulista radicado em Porto Alegre. Formado em jornalismo pela Unisinos (RS), atualmente é o editor da Agência de Notícias Ambiente JÁ e repórter do Jornal JÁ Porto Alegre.

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