Reportagens

Lixo da discórdia

Distrito Federal perde seu único depósito de lixo hospitalar, fechado pelo Ibama, e decide exportar o material para Goiás. O estado vizinho rejeita a oferta.

Carolina Mourão ·
7 de outubro de 2005 · 21 anos atrás

O jogo de empurra começou na manhã do dia 28 de setembro, quando a única usina de lixo hospitalar do Distrito Federal, que funcionava desde 1984 sem licença ambiental, foi fechada depois de uma blitz do Ministério Público com o Ibama. Os técnicos constataram que as águas da chuva se misturavam com o chorume, líquido poluente que escorre do lixo, e contaminavam os córregos do Valo, do Grotão e do Gatumé.

Em apenas três dias de paralisação, 90 toneladas de resíduos de material humano, seringas, luvas e gazes de 36 hospitais públicos e privados abarrotaram contêineres de clínicas e hospitais do Distrito Federal. Enquanto isso, técnicos do Ibama e as diretorias da Belacap (Serviço de Ajardinamento e Limpeza Urbana) e da Qualix, empresa terceirizada responsável pelo lixo, discutiam o destino do material. Encontraram uma solução caseira: exportá-lo para Goiás.

Duas carretas chegaram a levar o lixo até as portas da capital goiana, em Goianápolis, mas tiveram de voltar a Brasília depois que a Secretaria de Meio Ambiente de Goiás vetou sua entrada na cidade. O que gerou um novo problema: onde armazenar o material indesejável? No dia 5 de outubro, cerca de 45 toneladas de lixo hospitalar permaneciam guardadas em três caminhões no Setor de Garagens Oficiais, próximo ao Camping Show, espaço que recebe eventos de grande porte.

O Ibama não gostou. Segundo o chefe da Divisão Técnica do Ibama, Michel Kawashita, a Belacap e a Qualix não têm autorização para deixar ali os rejeitos hospitalares. “Foi uma surpresa, um flagrante sobre flagrante”. Segundo Kawashita, a tela que cobre o material não o protege da chuva, que pode fazer escorrer o chorume. “Tinha de ser uma lona impermeável e o pior é que o período de chuva já começou. Mas de qualquer maneira ali não pode ficar”, alertou. A Belacap tenta ganhar tempo: “Não há nenhuma irregularidade no transbordo e tudo o que o Ibama decidir será feito”, garante Expedito Apolinário, diretor de Operações do órgão público.

Para o deputado Augusto Carvalho (PPS), que preside a Comissão de Meio Ambiente da Câmara Legislativa, não é apenas a gestão do lixo hospitalar que anda cheirando mal em Brasília. “A relação da Qualix com a Belacap é objeto de investigações no Ministério Público, na Câmara Legislativa e no Tribunal de Contas. O diretor-geral da Belacap, Luiz Antônio Peres Flores, é primo da primeira-dama do Distrito Federal, Weslian Roriz, e está sendo investigado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público por enriquecimento ilícito, fraude em licitação, lavagem de dinheiro e improbidade administrativa”, denuncia.

Em junho deste ano, agentes federais estiveram no apartamento de Luiz Antônio Flores em Goiânia e na sede da Belacap, em Brasília, e encontraram documentos importantes para a investigação das transações suspeitas entre o órgão público e a empresa Qualix. E também armas, dólares e pepitas de ouro, tudo sem comprovação de origem nem declaração fiscal. O deputado encaminhou ofício ao presidente do Tribunal de Contas do Distrito Federal, Manoel de Andrade, pedindo o afastamento do diretor da Belacap. A Qualix pretende se defender atacando. Já informou que vai à Justiça contra a interdição da usina de lixo hospitalar e a multa de R$ 4 milhões aplicada pelo Ibama.

Em mais uma iniciativa para ordenar o setor, no dia 7 de outubro a Promotoria de Defesa do Meio Ambiente marcou uma audiência pública para conversar com donos de clínicas e hospitais particulares. Quer que eles cumpram a resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) que determina a separação do lixo tóxico dentro do próprio hospital.

O governo, além de livrar-se dos processos de corrupção, precisa decidir rápido para onde vai mandar o material. O secretário de Meio Ambiente de Goiás, Aldo da Silva Arantes, assegura que lá o lixo não entra. “O impasse é problema do Distrito Federal. Aqui já está decidido”, encerra.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
22 de julho de 2026

Carta de Curitiba pede ação urgente para proteger unidades de conservação no Brasil

Aprovado por aclamação pelos participantes da 1ª Conferência Nacional de Unidades de Conservação para a Biodiversidade, documento pede criação e implementação de UCs de proteção integral

Notícias
22 de julho de 2026

Levantamento revela redução alarmante de fêmeas de onça-pintada na Amazônia

Mesmo em um dos principais refúgios para o felino no país, a densidade de fêmeas de onça-pintada teve uma misteriosa queda de 77% em 17 anos, alerta estudo

Salada Verde
22 de julho de 2026

Cemaden mantém alerta de risco muito alto para inundações no Rio Grande do Sul

Com 143 municípios afetados pelas chuvas e cerca de 460 pessoas desabrigadas, estado segue sob risco de novas cheias nas bacias dos rios Taquari e Caí

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.