Reportagens

Da tora ao pincel

Depois que a Tailândia proibiu madeireiros de empregarem elefantes para carregar toras, os animais viveram dias difíceis. Foram salvos por dois artistas russos.

Carolina Elia ·
14 de outubro de 2005 · 21 anos atrás

A coisa anda tão feia para o lado da natureza, que até os bichos estão desempregados. No sul da Ásia, 3 mil elefantes domésticos foram colocados na rua quando a Tailândia arrochou as leis contra o desmatamento ilegal no fim da década de 80. Sem tora para carregar, eles perderam casa e comida e foram obrigados a viver de bico em circos nas grandes cidades. A sorte deles mudou quando dois artistas russos refugiados nos Estados Unidos, Komar e Melamid, conhecidos por terem idéias excêntricas, decidiram ensiná-los a pintar. Da noite para o dia, elefantes viraram artistas com direito a academias, galerias e leilão de obras na Christie’s.

O primeiro elefante a mostrar que sabia usar a tromba para manusear um pincel, ainda que o resultado fosse um borrão, foi Ruby. Um elefante asiático que para não morrer de tédio no zoológico americano de Phoenix, no Arizona, começou a desenhar na lama com um graveto. Até que o seu tratador lhe presenteou com pincéis e papéis. A experiência deu tão certo que um de seus desenhos foi vendido por 5 mil dólares. Isso foi no fim da década de oitenta e Ruby não teve concorrência até Komar e Melamid resolverem em 1995 adestrar o elefante Renee, do zoológico de Toledo, em Ohio. Na década de 70, eles tinham tentando ensinar arte para cachorros. Não deu certo. Mas os elefantes, mais inteligentes, gostaram da brincadeira.

Animado, em dois anos, o casal russo – que a essa altura já era americano desde nascença – partiu para a Ásia levando tinta, pincéis e telas. O objetivo era ensinar o maior número possível de paquidermes desempregados a ganhar a vida através da arte. Uma vez, Komar disse em uma entrevista que poucos elefantes gostam de pintar. Talvez dois em cada dez. Mas os que gostam,adoram. “Tudo o que temos que fazer é dar o material e a idéia”, completou. Em um ano, eles inauguraram a Academia de Artes de Elefantes no centro dedicado à conservação da espécie em Puket, na Tailândia.

Hoje este centro é sustentado pelos próprios elefantes. Suas obras estão à venda na internet e variam de 100 a 500 dólares. O dinheiro é dividido com o tratador de cada animal, que é uma espécie de co-autor da obra por escolher as cores. Navegando é possível encontrar o currículo de alguns desses artistas que possuem estilos próprios. A indonésia Elsa, por exemplo, começou a pintar aos cinco anos e costuma dançar quando está criando. Sua marca é usar até três pincéis ao mesmo tempo e fazer composições circulares.

Mas o artista mais comentado no momento é o tailandês Gonkam (foto ao lado). Há seis meses ele e mais um elefante passaram a ter aulas de realismo com um famoso artista plástico chinês: Chaowalit. Em pouco tempo, Gonkam, que nunca acerta o pincel fora da tela, passou a pintar paisagens, árvores e flores.  Para ver mais obras dele e de outros elefantes asiáticos que vivem de arte, acesse o link elephant art.

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