Depois de dois anos de discussões, pesquisa e uma boa polêmica, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) lançou no dia 1° de dezembro o ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial.
O resumo dos capítulos anteriores é mais ou menos o seguinte: o ISE é um índice que procura medir o desempenho em bolsa de uma carteira de ações de empresas comprometidas, segundo a Bovespa, com a responsabilidade social e a sustentabilidade empresarial. O índice surgiu de uma demanda de investidores institucionais (fundos de ações e fundos de pensão), que precisavam de um “benchmark”, isto é, de uma referência para saber se os seus fundos éticos estão gerando resultados financeiros acima ou abaixo do mercado.
No entanto, a importância do ISE vai além disso. Ainda não é possível dizer que fazer parte do índice tem um efeito positivo sobre o custo de captação das empresas, mas a tendência parece ser essa. E tem mais: as empresas tendem a tratar índices desse tipo como distintivos de virtuosidade.
A Bovespa constituiu um Conselho Deliberativo para ajudá-la a criar e manter o índice. Foi esse Conselho que tomou a polêmica decisão de não excluir a priori nenhum setor do índice. Em tese, isso significa que até mesmo uma empresa produtora de cigarros ou de bebidas poderia integrá-lo. Mas na prática a metodologia adotada para a seleção das empresas torna essa possibilidade remota.
A metodologia – desenvolvida pelo Centro de Estudos de Sustentabilidade da FGV/SP e baseada em conceitos já aplicados em índices americanos, ingleses e da África do Sul – teve como base a elaboração de um questionário que foi enviado para as 121 empresas cujas ações são as mais líquidas do mercado brasileiro. O questionário inclui cinco grandes grupos de perguntas (dimensões gerais, governança corporativa, econômica-financeira, ambiental e social). As respostas foram analisadas com uma ferramenta estatística chamada análise de “clusters”, que apontou o grupo com melhor desempenho geral.
A primeira lista de ações da carteira teórica do ISE tem 28 empresas. À primeira vista, traz algumas surpresas. Claro, não há entre elas nenhuma ação de empresa de cigarros, bebidas ou armas. Mas há empresas de setores com grande impacto ambiental. Como papel e celulose e siderurgia, setores com consumo pesado de recursos naturais. Energia elétrica e exploração de rodovias, com alto impacto sobre paisagens naturais. E transporte aéreo, grande gerador de gases do efeito estufa.
Essa surpresa inicial se dissipa quando voltamos à metodologia do índice. Ao adotar um critério de inclusão, e não de exclusão, os criadores do mesmo decidiram privilegiar as empresas com as melhores práticas e criaram as condições para que até empresas de alto impacto ambiental pudessem estar presentes.
Faz sentido: se existe uma demanda, por exemplo, por papel para escrever e imprimir, é natural que haja empresas que produzam papel. Quem quer uma sociedade ambientalmente sustentável deve buscar maneiras de reduzir a demanda por produtos de alto impacto ambiental. As empresas que os produzem têm a obrigação de fazê-lo com o menor impacto possível. O ISE é mais um estímulo para que as empresas brasileiras caminhem nessa direção.
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