Reportagens

Chove chuva

Em janeiro, choveu bem menos do que deveria no Acre. Se o quadro não se reverter, o estado tem tudo para repetir 2005, quando viveu a maior queimada de sua história.

Manoel Francisco Brito ·
3 de fevereiro de 2006 · 20 anos atrás

Não foi tão ruim quanto no mesmo período do ano passado. Mas o regime de chuvas no Acre em janeiro de 2006 continuou longe das médias anuais que vêm sendo registradas desde o início dos anos 90. “Janeiro de 2005 foi extremamente seco”, diz o físico da Universidade Federal do Acre (UFAC) Alejandro Fonseca, que está monitorando o índice pluviométrico na capital e outras regiões do estado. “Janeiro de 2006 foi muito seco”. De 1990 até 2004, a média de chuvas no mês de janeiro para o Acre ficou em torno dos 300mm. No ano passado, ficou em 140mm. Este ano, segundo Fonseca, estacionou nos 200mm de média. “É preocupante”, conclui.

A razão da preocupação não é difícil de entender. A soma de seca extrema com a tradição de atear fogo ao campo para a limpeza de pastos e plantações transformou o Acre, no ano passado, numa espécie de sucursal do inferno. As queimadas na lavoura acabaram atingindo florestas esturricadas pela ação do sol e a falta de água. Resultado, o estado ardeu como nunca tinha ardido antes em toda a sua história. Entre julho e novembro de 2005, os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registraram quase 7 mil focos de calor no leste do Acre, um aumento de 200% em relação ao ano anterior. O fogaréu foi debelado, mas deixou uma herança maldita: cerca de 250 mil hectares de florestas chamuscados e outros 350 mil hectares de áreas abertas com vestígios de cinzas.

“É uma região imensa com material suscetível a combustão”, diz o ecologista Irving Foster Brown, também da UFAC. Daí a aflição em relação aos índices pluviométricos registrados em janeiro desse ano. Água de menos coloca o Acre no rumo de repetir seu triste desempenho do ano anterior. O desempenho da chuva no último mês podia ter sido até pior. Nas duas últimas semanas de janeiro, a água voltou a cair mais forte sobre o estado, uma indicação talvez que a anomalia possa ser passageira. “Tomara”, diz Brown, na torcida para que fevereiro, mês em que tradicionalmente chove mais na região, traga nuvens suficientes para compesar o déficit de pluviosidade registrado até agora.

Se isso acontecer, o risco de se ter um novo incêndio de grandes proporções no estado cai. Infelizmente, não acaba. Para tanto, além de uma mãozinha da natureza, o Acre vai precisar de uma forte dose de colaboração dos seres humanos que vivem nele. Terão que aprender a passar pelo menos o ano de 2006 sem tocar fogo no campo para limpá-lo, velho vício da agricultura nacional. “No mínimo, teremos que impedir queimadas próximas à florestas vulneráveis aos incêndios”, diz Brown. Será possível? “Tem que haver um esforço grande de fiscalização e conscientização. Estou otimista. Mas só o futuro dirá”. Fonseca também demonstra um otimismo cauteloso em relação ao problema.

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Ciclos naturais

Ele diz que os cientistas que trabalham no Acre melhoraram sua capacidade de monitorar a situação este ano e portanto de alertar a população e os governos sobre eventuais problemas no futuro. Se os alertas estão sendo ouvidos é outra história. “Teremos que ver para crer”, prossegue Fonseca, lembrando que pelo menos quem entende do problema não está repetindo os erros cometidos no ano passado. “Nós demoramos a compreender que os indícios apontavam para a possibilidade de um desastre e não fomos eloquentes nas advertências como estamos sendo este ano”. Não é a única mudança de atitude que pode ser vista no Acre.

Os governos estadual e municipais também dão sinais de que pretendem agir para prevenir uma nova catástrofe. Brown, por exemplo, estava na fronteira do Acre com a Bolívia e o Peru em uma reunião entre as defesas civis do estado e dos dois países para analisar o que aconteceu no ano passado. “Estamos olhando para trás para descobrir qual a melhor maneira de planejar o futuro”, diz ele. No dia 13 de fevereiro, o governo estadual se reunirá com representantes de municípios para definir as linhas prioritárias de ação para preparar o Acre para não repetir o que aconteceu em 2005.

Fonseca alerta aos mais apressados que não há ainda nem dados e nem tempo suficiente para que se possa atribuir diretamente o que aconteceu no ano passado e o que está ocorrendo em janeiro deste ano a alguma mudança climática mais radical. Em outras palavras, afirmar que as oscilações de temperatura e pluviosidade no Acre são resultado do desmatamento ou do aquecimento global, por exemplo, ainda é temerário. Em 1970 e 1990, o Acre experimentou um ciclo de chuvas mais intenso que nos anos anteriores. A partir de 1990, a situação se inverteu. “Pode muito bem acontecer que lá para 2010, a gente volte a ter mais chuvas”, diz Fonseca.

O drama de quem se debruça sobre o clima reside justamente no fato que ele só permite afirmações definitivas depois que se examinam dados num longuíssimo período de tempo. O que há de claramente novo no Acre desde que se começou a coleta de dados metereológicos no estado, há 36 anos, é uma presença humana cada vez mais maciça em seu território. E foi ela, e não o clima seco, a principal responsável pelas queimadas do ano passado. A falta de chuva pode ter dado o combustível, mas foram pessoas de carne e osso que riscaram os fósforos.

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