Reportagens

“O parque é lindo, imagine o que é poder mostrar a natureza intocada a seus filhos”

O Parque Nacional Cajas é a principal fonte de água para Cuenca, mas hoje está ameaçado por visitantes que jogam lixo e queimam a floresta.

Maricela Rivera ·
1 de outubro de 2012 · 14 anos atrás
A água aqui é fonte de saúde, diversão e também de renda. Crédito: Rubén Ramírez, Finding Species
A água aqui é fonte de saúde, diversão e também de renda. Crédito: Rubén Ramírez, Finding Species
A entrada ao Parque Nacional Cajas é um amplo empedrado, no final podemos ver uma casa com teto de palha. Enquanto estacionamos o carro, um guarda sai da casa, parece que nos espera. Com seu uniforme azul escuro nos faz gestos com as mãos para que entremos na casa, centro de interpretação do parque, que dispõe de mapas e uma chaminé para acalmar o frio. 

De bigode cinzento e cara bondosa Seu Luis Bravo, guarda do parque, pede para que preenchamos um pequeno formulário necessário para ingressar. “É que agora controlamos a capacidade de carga, porque com isso da entrada gratuita vem mais gente”. Nativo de Angas, morou toda sua vida perto do parque. “Aqui a estrada foi construída faz uns 20 anos, o caminho antigo era por Molleturo, ali estavam o que era conhecido como as quatro estações importantes para o comercio, Arimachay, Quinuas, Miwid e Molleturo”.

O parque funciona como principal fonte de água para a cidade de Cuenca, diz Seu Luis enquanto nos mostra a lagoa Toreadora. “Aqui do parque levam água para a cidade, antes levavam de Saucay, mas com o crescimento da cidade, levam de um ponto que se chama Sustag, e também de trás do rio Yanuncay”. Só dentro da área protegida existem 284 lagoas “e fora do parque existem mais montanhas e também lagoas, assim que falamos de umas 400 lagoas que aportam para o fornecimento de água em Cuenca”.

Seu Luis lembra que quando foi demarcado o parque pelo Ministério de Agricultura e Pecuária, os primeiros encarregados, houve uma guerra com processos e advogados, entre os moradores e o Ministério. “Foi bárbaro, uma vez quase mandaram de volta queimado um engenheiro, porque já não se podia ter gado nem cavalos, e disso a gente aqui vivia antes”. “Muitas comunidades perderam tudo, e só se salvaram os que tinham documentos”.

Para Luis, há duas opiniões do parque, “em primeiro lugar, o parque é lindo, imagine o que é poder mostrar a natureza intocada a seus filhos, mas o difícil é isso que os parques já são de todos e entra gente que não sabe de natureza nem de proteção e vem querendo fazer o que querem, tem gente que vem para acabar com a floresta e queimar as matas”. Os 24 guarda-parques que trabalham no parque não podem cobrir toda a área, o que dificulta seu trabalho.

O vento está cada vez mais forte, “hoje vocês tiveram sorte, todos estes dias fez frio, por isso eu venho preparado”, diz Seu Luis, e nos mostra a adaptação que fez em seu uniforme para resistir o frio. “Mas vocês têm que ir a Angas em suas festas, lá só se vê pessoas com ponchos, temos a banda da comunidade e muitos fogos de artifício, essas tradições não se perdem”. Com o convite feito e a promessa de retornar, partimos rumo à seguinte aventura.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Externo
2 de outubro de 2026

Só 1% do orçamento foi destinado ao clima por candidatos a governador que buscam permanecer no poder na Amazônia 

Em cinco estados da Amazônia Legal, candidatos à reeleição e políticos que assumiram o governo durante o atual mandato disputam a permanência no cargo. Apesar de todos citarem a agenda climática em seus planos de governo para 2026, juntos, os cinco governos empenharam apenas 1,3% do orçamento em despesas relacionadas ao tema desde 2023: R$ 6,4 bilhões, contra R$ 475 bilhões em gastos não relacionados ao clima →

Análises
2 de outubro de 2026

Futuros governadores têm desafio de recuperar o Cerrado, berço das águas 

As candidaturas ao governo dos estados receberam uma lista de propostas concretas para recuperar as bacias hidrográficas do bioma que abastece oito das doze grandes bacias do país →

Análises
2 de outubro de 2026

Muito do futuro da conservação da natureza se decide no Congresso

Desmonte socioambiental e passivo institucional são apenas algumas das decisões que podem ser barradas ou avançadas no Legislativo →

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.