Salada Verde

Em manifesto, pesquisadores pedem reestruturação governamental com compromisso ambiental

Comunidade científica da Botânica critica desatenção do Governo Bolsonaro sobre temática ambiental. Documento cita relatório da ONU que aponta insuficiência de países para conter crise climática

Michael Esquer ·
16 de novembro de 2022
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Reestruturação governamental com sustentabilidade. Isto é o que pede “Carta Manifesto pela Emergência Climática” com mais de 500 assinaturas de pesquisadores e entidades científicas da Botânica. O documento ressalta a indignação com a “baixa relevância” dada pelo governo Bolsonaro à temática ambiental e pede uma reestruturação do novo governo que possa colocar o país rumo à sustentabilidade, conforme definido em acordos internacionais, como o Acordo de Paris. 

Motivado a partir dos resultados de pesquisas apresentadas no 72º Congresso Nacional de Botânica – evento que aconteceu entre 24 e 28 de outubro, promovido pela Sociedade Brasileira de Botânica (SBB) – , o documento tem como estopim a declaração do secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas (ONU) sobre Mudança do Clima, Simon Stiell, que disse, em outubro, que o mundo não está nem perto do prometido para conter a crise climática. 

Como mostrou ((o))eco, o relatório da ONU sentenciou que as metas estabelecidas pelos 193 países signatários do Acordo de Paris são insuficientes e permitirão que muitos gases de efeito estufa ainda sejam lançados na atmosfera, podendo levar a um aquecimento de 2,5ºC até o final do século – quando 1,5°C é a meta de limitação do aquecimento do planeta. Por isso, a carta ressalta a preocupação com o investimento em políticas públicas voltadas tanto à pesquisa como à implantação de medidas de conservação  ambiental e desenvolvimento científico e tecnológico do país. Isto porque, segundo a carta, estes são alvo da falta de atenção do “Poder Público atual”. 

“Como signatário do Acordo de Paris, o Brasil se comprometeu a reduzir as emissões  de gases de efeito estufa em 37% até 2025 em relação a 2005, e com uma indicativa  de que poderia reduzi-las em 43% até 2030. Parte significativa da redução de emissões  do Brasil viria, na verdade, da remoção de CO2 da atmosfera através de restauração  florestal. Neste sentido, o país assumiu o compromisso de restaurar 12 milhões de  hectares de sua vegetação nativa”, diz trecho da carta manifesto. 

De acordo com o documento, porém, o Brasil sequer montou um sistema de monitoramento da restauração da vegetação nativa. Esta realidade, segundo a carta, impede a avaliação de quanto falta para atingir a  meta proposta. A manifestação também cita pesquisas do MapBiomas, que “sugerem que o governo brasileiro restaurou menos de 5% dos 12 milhões de hectares previstos”. “Por  outro lado, o setor privado tem investido na restauração, de forma que o Brasil como  um todo restaurou cerca de 12% da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC  da sigla em inglês)”, diz a carta. 

Para a comunidade científica que assina a carta, não é possível uma mudança real para o alcance de metas climáticas sem a participação ativa das sociedades científica e civil, mediante políticas públicas claras, objetivas e coletivas. “Portanto, para que possamos sonhar e conquistar futuros possíveis, tornamos pública  nossa indignação e clamamos por uma reestruturação governamental que coloque o  país no rumo da sustentabilidade definida no Acordo de Paris (2015), no Pós-2020  Marco Global da Biodiversidade (2022) e nos Cenários para o futuro da biodiversidade  (Nature’s Future Scenarios).”, conclui o documento. 

Leia a carta na íntegra.

  • Michael Esquer

    Jornalista em formação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com passagem pela Universidade Distrital Francisco José de Caldas, na Colômbia, tem interesse na temática socioambiental e direitos humanos

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