O Brasil abriga uma das maiores diversidades biológicas do planeta, e uma elaborada sociobiodiversidade. Toda essa riqueza viabiliza a produção de alimentos, a disponibilidade de água, a regulação do clima, a fertilidade dos solos, a polinização de culturas agrícolas e inúmeras atividades econômicas e serviços ecossistêmicos. Também constitui uma fonte de conhecimento científico, inovação tecnológica e oportunidades para uma bioeconomia que gere prosperidade sem destruir o patrimônio natural do qual depende.
O Brasil tem uma oportunidade estratégica de colocar a biodiversidade no centro de uma agenda integrada de desenvolvimento, conectando conservação da natureza, segurança hídrica, alimentar e climática, saúde e prosperidade econômica. O grande desafio é compreender e fortalecer os nexos entre esses sistemas, reconhecendo que desmatamento, fragmentação de habitats, incêndios, mineração, contaminação, mudanças no uso da terra, espécies invasoras e mudanças climáticas são processos interconectados, que exigem respostas igualmente integradas. Avançar nessa agenda significa transformar desafios ambientais em oportunidades de inovação, cooperação e construção de territórios mais sustentáveis, resilientes e inclusivos.
Enfrentar esse cenário exige muito mais do que ações emergenciais ou projetos isolados. Iniciativas pontuais, limitadas à duração de ciclos de financiamento e sem continuidade institucional, são insuficientes para responder à complexidade e à dimensão dos problemas contemporâneos. Precisamos de capacidade permanente para produzir conhecimento, acompanhar as transformações ambientais, antecipar riscos e subsidiar decisões estratégicas. Isso exige uma mudança de perspectiva: superar a lógica de projetos fragmentados e avançar para programas estruturantes, com metas claras e continuidade institucional.. É justamente nesse contexto que o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), criado em 2004 no âmbito do então Ministério da Ciência e Tecnologia, tem capacidade para assumir essa importância estratégica para o Brasil.
Uma rede nacional a serviço de um patrimônio nacional
Reunindo mais de 2.500 pesquisadores, presente em todo o território nacional e atuando nos seis biomas brasileiros (Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa), o PPBio representa uma das mais abrangentes iniciativas de articulação científica dedicadas à biodiversidade. Pela escala de sua rede, sua diversidade de competências e sua abrangência territorial, pode ser caracterizado como o maior programa brasileiro de pesquisa em biodiversidade e um dos mais abrangentes do mundo nessa área
Seu valor, entretanto, transcende o número de pesquisadores ou instituições participantes. O PPBio conecta competências, integra informações produzidas em diferentes regiões, fortalece as coleções biológicas, desenvolve metodologias comparáveis e transforma estudos locais em conhecimento útil para compreender processos ecológicos em escala nacional.
Uma publicação nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, em 2021, registrou 161 sítios de amostragem associados ao programa e aproximadamente 1.200 publicações científicas. O trabalho destacou o uso de metodologias padronizadas em grande parte desses sítios, permitindo comparações dentro e entre biomas e ao longo do tempo, além da formação de recursos humanos tanto na graduação quanto na pós-graduação. Esses números constituem um retrato documentado de parte da trajetória do PPBio, não um balanço atualizado de toda a sua produção.
A importância dessa estrutura é simples de compreender: não se protege adequadamente aquilo que não se conhece e não consegue prever as mudanças ao longo do tempo. Uma expedição científica pode revelar espécies desconhecidas. Um inventário pode identificar áreas prioritárias para conservação. Uma série de observações de longo prazo pode mostrar que determinada população está diminuindo, que uma espécie invasora está se expandindo ou que uma comunidade biológica está mudando em resposta ao aquecimento, à seca ou ao fogo. Quando essas informações são integradas e comparáveis, tornam-se instrumentos eficazes na orientação de políticas públicas, licenciamento, restauração ecológica, planejamento territorial e estratégias de adaptação climática.

O PPBio contribui justamente para construir essa capacidade coletiva, articulando inventários biológicos, coleções científicas, formação de recursos humanos e pesquisas sobre os processos que determinam a distribuição e a dinâmica da biodiversidade e da sociobiodiversidade.
A história do PPBio está ligada aos compromissos assumidos pelo Brasil desde a Eco-92, aproximando o conhecimento científico dos desafios da sociedade. Ao longo dessa trajetória, o programa envolveu milhares de pesquisadores, estabeleceu sítios de monitoramento padronizados em diferentes regiões do país, produziu centenas de publicações científicas e contribuiu para a formação de centenas de profissionais.
Hoje, presente em todos os biomas terrestres brasileiros e em áreas costeiras, o PPBio conecta biodiversidade, saúde, mudanças climáticas, restauração ecológica, bioeconomia e desenvolvimento sustentável tendo, portanto, uma atuação transdisciplinar. Sua atuação em diferentes territórios, incluindo áreas de povos indígenas e comunidades tradicionais, oferece oportunidades para valorizar saberes locais, ampliar a participação social e construir soluções conjuntamente.
Mais do que produzir conhecimento sobre a biodiversidade, o PPBio busca colocar a ciência a serviço das pessoas e dos territórios. Seu compromisso é fortalecer uma ciência inclusiva, colaborativa e capaz de apoiar decisões que promovam a conservação da natureza, a qualidade de vida e a coexistência entre pessoas e outras espécies. Assim, a biodiversidade deixa de ser vista apenas como um patrimônio a proteger e passa a ser reconhecida como parte fundamental de um futuro mais justo, saudável e sustentável para a sociedade brasileira.
Do conhecimento à segurança hídrica, alimentar e climática
O apoio ao PPBio não deve ser entendido como uma política restrita à comunidade acadêmica ou exclusivamente ambiental. Trata-se de um investimento em questões transversais, com implicações para diferentes setores do Estado, da economia e soberania de dados. Na segurança hídrica, o conhecimento sobre ecossistemas e suas respostas às mudanças ambientais pode contribuir para identificar áreas críticas, compreender relações entre vegetação, solo e água e orientar ações de conservação e restauração em bacias hidrográficas. Na agricultura, pesquisas sobre polinizadores, organismos do solo, diversidade genética e interações ecológicas podem contribuir para reduzir vulnerabilidades e sustentar sistemas produtivos mais resilientes. Na prevenção de riscos, dados biológicos associados a informações climáticas e territoriais podem ajudar a reconhecer áreas suscetíveis à degradação, acompanhar alterações em ecossistemas sensíveis e apoiar estratégias de adaptação. Na restauração ecológica, conhecer as espécies nativas, suas exigências ambientais e suas funções permite superar metas restritas a hectares recuperados ou número de mudas plantadas. A restauração precisa recuperar a composição, a estrutura e os processos dos ecossistemas de referência, respeitando as características de cada ambiente. Na inovação e na bioeconomia, o conhecimento taxonômico, genético e ecológico constitui uma base para investigar recursos biológicos, desenvolver soluções tecnológicas e valorizar a biodiversidade de maneira sustentável, respeitando a legislação e os direitos dos detentores de conhecimentos tradicionais. Na soberania dos dados, o PPBio possui sua própria política de dados, utilizando a plataforma do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr) para integrar dados sobre a biodiversidade brasileira.
Há também uma dimensão estratégica internacional. O Brasil participa de compromissos multilaterais relacionados à biodiversidade, ao clima e ao desenvolvimento sustentável. Cumprir esses compromissos exige informação confiável, capacidade de avaliação e equipes capazes de interpretar evidências e contribuir para a formulação de políticas. A existência de uma rede científica nacional amplia a autonomia do país para definir prioridades, produzir diagnósticos próprios e negociar com base em conhecimento consistente. A biodiversidade, portanto, não é um tema periférico da política de desenvolvimento. Ela integra a infraestrutura natural que sustenta a sociedade brasileira, principalmente na economia verde.
O que se espera da sociedade civil
Fortalecer o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) é mais do que uma decisão de política científica: é uma oportunidade de construir uma agenda coletiva que conecte biodiversidade, bem-estar humano, desenvolvimento sustentável e justiça socioambiental. Essa agenda deve envolver pesquisadores, comunidades tradicionais e indígenas, gestores públicos, organizações da sociedade civil, setor produtivo e cidadãos, reconhecendo que o conhecimento e o cuidado com a biodiversidade são responsabilidades compartilhadas. Para avançar nessa direção, propomos sete prioridades:
1. Construir um compromisso nacional de longo prazo com a biodiversidade. Garantir financiamento previsível e plurianual para manter redes de pesquisa, coleções biológicas, sítios de monitoramento e séries históricas, reconhecendo o conhecimento sobre a biodiversidade como um patrimônio coletivo e um investimento no futuro do país.
2. Fortalecer uma infraestrutura nacional de monitoramento, incluindo o participativo. Ampliar e integrar redes de observação da biodiversidade em todos os biomas e territórios, combinando métodos padronizados, tecnologias emergentes e iniciativas de ciência cidadã, com participação de instituições e atores locais.
3. Conectar biodiversidade aos grandes desafios da e das políticas públicas. Os resultados devem alimentar, de forma estruturada, políticas de conservação, restauração, adaptação climática, segurança hídrica, planejamento territorial e uso sustentável da biodiversidade. Para isso, são necessários canais permanentes de diálogo entre pesquisadores e gestores.
4. Valorizar a formação de recursos humanos e a participação regional. A continuidade do programa deve fortalecer universidades, institutos de pesquisa, museus, herbários, coleções zoológicas e equipes locais. O conhecimento da biodiversidade depende tanto de tecnologias avançadas quanto de profissionais capacitados para reconhecer, coletar, identificar e monitorar organismos em seus ambientes naturais.
5. Estabelecer indicadores públicos de relevância e impacto. Além de publicações e formação de pesquisadores, a avaliação deve considerar a continuidade das séries de dados, a qualidade e a disponibilidade de dados e metadados em plataformas abertas das informações, a cobertura dos ecossistemas, o desenvolvimento de métodos, a utilização dos resultados por gestores e as contribuições demonstráveis para políticas públicas.
6. Fortalecer a comunicação científica e o acesso à informação. Os resultados precisam ser apresentados em linguagem acessível, com produtos específicos para gestores, educadores, comunidades e setores produtivos. Uma rede nacional de biodiversidade deve produzir conhecimento de excelência e, simultaneamente, tornar esse conhecimento compreensível e útil à sociedade que a financia.
7. Promover a coprodução de conhecimentos com povos indígenas e comunidades tradicionais. Construir agendas de pesquisa e monitoramento conjuntamente, desde a definição das perguntas até a interpretação e aplicação dos resultados. Valorizar diferentes sistemas de conhecimento, respeitar direitos, protocolos comunitários e formas próprias de relação com a natureza, assegurando participação efetiva e benefícios compartilhados.
8. Fortalecer o conhecimento e o uso sustentável da biodiversidade como elementos estratégicos para a soberania nacional. Integrar redes de pesquisa, coleções biológicas, monitoramento de longo prazo e sistemas de informação, como o SiBBr, ampliando o acesso, a qualidade e o uso dos dados pela sociedade. Combinar conhecimentos científicos e tradicionais com tecnologias emergentes, como inteligência artificial, análises genéticas e sensoriamento remoto, para apoiar decisões sobre conservação, restauração, saúde, adaptação climática e desenvolvimento territorial. Valorizar a pesquisa fundamental, a capacidade científica nacional e a coprodução de conhecimentos como bases para a inovação, o uso sustentável da biodiversidade e a autonomia do Brasil na construção de soluções para seus desafios socioambientais.
Manter e fortalecer o PPBio é assegurar ao Brasil uma capacidade científica permanente e estratégica para conhecer, monitorar e proteger seu maior patrimônio natural, transformando biodiversidade em conhecimento, inovação e oportunidades de desenvolvimento sustentável. Sua continuidade deve ser reconhecida como um compromisso de Estado, e não como uma iniciativa sujeita a ciclos temporários de financiamento ou mudanças administrativas. O Brasil não pode abrir mão de uma rede de geração de conhecimento construída ao longo de décadas, justamente quando mais precisa dela para decidir seu futuro com autonomia, responsabilidade e visão de longo prazo.
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