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Animais de estimação e meio ambiente

Proteger os cães e gatos abandonados nas cidades não tem nada de ambientalmente correto. Eles são excessivos e inúteis. Só trazem risco para a sociedade.

10 de agosto de 2005 · 16 anos atrás
  • Marc Dourojeanni

    Consultor e professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima, Peru. Foi chefe da Divisão Ambiental do Banco Interam...

Paparicar cachorros, gatos, papagaios, aves canoras e outros bichos, incluídos pererecas, aranhas, escorpiões e cobras, é um direito que assiste a qualquer cidadão e são muitos os que o fazem. O mesmo é verdade para os que colecionam e cuidam de orquídeas, plantas carnívoras ou samambaias.

Também existem os advogados ferozes da proteção dos direitos dos animais e da repressão da crueldade contra eles. Quase todos os que sentem essas afeições e praticam tais ações acreditam firmemente que através delas contribuem para proteger o ambiente e que, em conseqüência, são ambientalistas praticantes, merecedores do reconhecimento e admiração da sociedade. Mas, examinando melhor, será mesmo?

Minha avó, na verdade mãe do meu padrasto, amava os animais muito mais que a seu marido ou a seus filhos, a quem apelidava com nomes que correspondiam a queridos cachorros falecidos. No seu enorme coração, na verdade na sua residência, havia lugar para reunir e manter, entre novos ingressos e óbitos, uma média de 120 cachorros, 30 gatos e, claro, alguns macacos, raposas, tamanduás, preguiças e outros animais do mato que alguém abandonava na rua ou que a polícia recolhia. Para alimentar seus hóspedes, os restaurantes da cidade enviavam todo dia pelo menos dois cilindros de restos de comida à sua casa. E ela mesma, com a ajuda de um empregado, distribuía a comida nos diversos cômodos da casa e no terraço. Logo, saía em disparada na rua para procurar mais bichinhos desamparados.

Eu não sei de onde meu avô postiço, que era um homem perfeitamente equânime, tirava tanto amor pela sua esposa para suportar a situação por mais de uma década, até seu falecimento (por sinal ele se suicidou). Os odores de comida e dejetos orgânicos eram, em que pese todo esforço de limpeza, insuportáveis; as inevitáveis brigas entre bandos de cachorros ou entre eles e os gatos ou entre gatos eram o espanto do bairro, que de outra parte era bastante elegante. E nunca poderei esquecer a impressionante e, para dizer verdade, formosa dança de milhões de pulgas famintas nos cômodos vazios através do facho de luz que entrava pela janela.

Será que a minha avó era uma ambientalista? Eu acredito que ela achava que era. Presidia a Sociedade Protetora dos Animais de Lima (Peru) e, além dos bichos que tinha no seu domicílio, sua entidade dispunha de um amplo depósito, igualmente lotado, num bairro popular, aonde mais comida chegava dos restaurantes limenhos. É evidente que tirar animais abandonados, famintos e enfermos das ruas é um serviço público e que melhora o ambiente urbano. O que não é igualmente “ambiental” é manter todos esses animais vivos na improvável esperança de que alguém se disponha a adotá-los ou porque sua eliminação produz dor no coração. Minha outra avó comeu gatos para sobreviver em Paris, durante os piores dias da última guerra mundial. Na Lima da minha avó, a gente passava tanta ou mais fome que em Paris na época da guerra. Não estou sugerindo que os famintos peruanos comam gato ou cachorro (o que fazem, por certo), nem sequer que as sobras dos restaurantes sejam distribuídas entre eles. O que digo é que o esforço da minha avó estava muito mal orientado.

Os bichos que ela recolhia deviam ser sacrificados, humanamente, no lugar de mantê-los vivos por anos e anos, em custosas condições infra-animais. Mas isso nem era cogitado por ela e suas colegas da Sociedade. Em conseqüência, seu comportamento não só não era ambientalmente sensato, como de ética duvidosa.

A recente clonagem de um cachorro na Coréia dividiu os seus amantes. Uns, esquecendo que os cachorros não são humanos, levantaram dúvidas sobre a moral do assunto. Outros anunciaram estarem dispostos a pagar fortunas para clonar seus cachorros mais velhos, solução, segundo eles, bem melhor que empalhá-los. Um psicólogo especialista em cães explicou detalhadamente os inconvenientes emocionais dessa alternativa, mas não arrefeceu o entusiasmo geral. Os coreanos são hábeis negociantes. Já abriram um grande mercado para sua aventura científica. Obviamente, certa excêntrica milionária nacional que costuma fazer festas orgiásticas para sua cachorra (acredito que esse seja o sexo da afortunada) foi entrevistada. E o assunto foi motivo para que os meios de comunicação passassem em revista os gastos exorbitantes que os ricos do mundo fazem para mimar seus bichos de estimação. Isso acontecia acompanhado, na mesma tela e programa televisado, das centenas de milhares de nigerinos (habitantes do Níger) morrendo de fome, primeiro os meninos.

A ética não é o que se deseja discutir aqui. Toda vida é importante e merece respeito, inclusive as dos cachorros e gatos. A crueldade com os animais deve ser reprimida com o mesmo vigor que quando é praticada com os humanos. A crueldade é uma só. O que se discute, neste caso, é se proteger os animais domésticos e lutar contra a crueldade é um comportamento que tem algo a ver com o tema ambiental. Tudo indica que não é e, mais ainda, que a proteção exagerada aos animais domésticos é contrária ou negativa para com o meio ambiente.

Razões? São muitas. Na natureza, o equilíbrio ecológico elimina o que é excedente. Segmentos de populações de animais que excedem os limites da resistência do meio são sacrificados por este, mediante fome, depredação ou enfermidades. Na pecuária, os fazendeiros não deixam que seus animais excedam a capacidade da pastagem. Os que estão acima dessa capacidade vão ao matadouro, onde são degolados. Contrariamente, os animais domésticos urbanos excedem longamente não só a capacidade do meio, mas também a sua necessidade. Sua população, além de ser excessiva, é completamente inútil, pois não cumpre nenhuma função. Por isso estão nas ruas em vez de estarem nas propriedades de seus patrões.

É verdade que um cachorro pode ser necessário para alertar e defender a seus amos. Quiçá até dois ou três. Mas a maior parte dos cachorros da atualidade não serve nem para isso. São apenas objetos nos quais se investe muito dinheiro que poderia ter outros usos valiosos, no nível familiar ou social. No caso dos cachorros dos pobres, estão nas ruas prejudicando o entorno e criando graves riscos para a sociedade. E nem se está falando dos pitbulls e da ridícula medida da governadora do Rio de Janeiro. Fala-se da sujeira nas ruas, do risco de propagação da raiva e de outras enfermidades, dos parasitas que acompanham esses animais e que se propagam aos humanos e, dentre outras coisas, dos acidentes automobilísticos provocados por condutores piedosos que evitam atropelar um cachorro, não obstante agindo assim matem humanos.

Alimentar cachorros e gatos inúteis é, de fato, um enorme mal gasto de energia. Para dar de comer ração a dois cachorros grandes gasta-se, em média, um salário mínimo mensal, ou seja, em áreas rurais poderia se dispor de um guarda no lugar de dois cachorros. Mas alimentá-los é apenas uma parte do custo de manutenção.

Os gatos são bichinhos adoráveis. Admite-se isso. Mas sabe-se sobejo que são depredadores violentos, altamente eficientes e que muitas vezes apenas respondem a seu instinto e não à sua fome. Dito de outro modo, eles caçam por esporte. Só que não aplicam nenhum plano de manejo da fauna e, em conseqüência, podem extingui-la, como se confirmou na Inglaterra com muitas espécies de aves. Vai explicar isso a uma amadora de gatos!

E os cachorros não ficam atrás. Famintos ou não, retornam a seus hábitos originais e se agrupam para despedaçar a denteadas a fauna do Parque Nacional de Brasília e de tantos outros lugares onde se pretende cuidar de outros animais. No Pantanal e outras regiões, eles também transmitem pestes e pragas que prejudicam a fauna selvagem. Os protetores de animais se opõem violentamente à eliminação desses cachorros pelos guarda-parques, com tiros certeiros e piedosos. Mas nem falam dos animais que são as vítimas: olhos que não vêem, coração que não sente, dizem e praticam.

E os que criam animais não domesticados, como papagaios, araras, micos ou macacos, cobras, etc., será que acham que esses bichos estão mais felizes condenados à prisão perpétua numa jaula estreita que em plena liberdade no mato onde foram capturados? É verdade que no mato correm riscos. A liberdade tem um custo elevado e, ainda assim, todos os seres vivos a preferem.

Dito de outra forma. Os animais de estimação e sua proteção são fatos normais agora, como o são há milhares de anos. Os índios, mesmo os mais primitivos da Amazônia, têm bichos de estimação. Isso é um comportamento atávico e não tem nada de errado. Temos sem dúvida uma relação íntima e ancestral com eles. Apenas não se deve exagerar, sob o risco de ser muito imoral, como quando o cachorro ou gato da gente tem mais cuidados, mais comida e mais investimento que o menino da esquina ou, pior, que o filho ou filha dos próprios empregados. O que é categórico é que não existe uma relação positiva, qualquer que seja, entre animais de estimação e a temática ambiental.

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