O Pit Bull tem sua história ligada ao combate em rinhas entre cães e touros, “esporte” que foi muito apreciado, especialmente na Inglaterra no século XVIII. A prática foi banida pelo governo inglês em 1835. Para “fabricar” o Pit Bull, os ingleses cruzaram Buldogs, que apesar de fortes, não tinham grande agilidade, e Terriers, cães de caça altamente destemidos, resistentes e rústicos. A coragem, agressividade, resistência, capacidade de lutar e mordida pesada são os aspectos mais valorizados na raça. Afinal, ele é um cão de briga, com disposição para morrer lutando se preciso.
O que faz um cão de briga dentro de um apartamento na cidade? O mesmo que milhares de outros cães, de raças diversas. O cão, seja ele um pooddle ou um Pit Bull, é vítima. No entanto, os que apresentam comportamento mais agressivo e não seguem a risca, o script de comportamento ideal traçado pelos donos, são discriminados pela sociedade adoradora de cães que se comportam do jeito que gente gosta.
A escolha da raça de um cachorro doméstico não é mais funcional. Hoje, essa opção “revela” a personalidade do proprietário. Quem escolhe um cão agressivo para viver dentro de um apartamento, é no mínimo, ou muito corajoso ou muito estúpido. Como não tenho admiração alguma pela relação de dependência que homem estabeleceu com o cachorro, vejo o Pit Bull como qualquer outra raça escravizada e manipulada pelo homem. Sem dúvida alguma, ele se transformou num desafio. Para adequar o Pit Bull às suas necessidades pessoais, o homem vai adestrar, castrar, sedar. Enfim, em breve, os valentões terão sua versão toy, com direito a dicas de treinamento para evitar recaída. Afinal, os animais “transgênicos” podem apresentar “defeitos”.
Enquanto os cachorros estiverem gerando despesas e movimentando o mercado, eles serão bem vindos. Só nos Estados Unidos, 7 bilhões de dólares são gastos, por ano, na saúde dos animais domésticos. No Brasil, de acordo com dados do Sindicato Nacional das Indústrias de Alimentação Animal, de 1994 a 2004, o mercado de alimentos voltados para animais de estimação cresceu 690%. Funciona como qualquer outro hábito de consumo.
Em reportagem publicada na revista Super Interessante, especial Bichos 2, o químico e jornalista científico Stephen Budiansky, autor de The Truth About Dogs (“A verdade sobre os Cães”, ainda inédito no Brasil) dá algumas dicas sobre a “educação” de cachorros. Fazendo um comparativo entre um bebê e um filhote de cachorro, o americano diz que uma criança precisa de amor incondicional e não pode ser criada obedecendo a comandos. Mas, para um cão, isso só mostra qual é a hierarquia dele dentro da casa. “A sociedade deles é mais simples: uns mandam e outros obedecem. E, se deixarmos isso claro, eles vão fazer de tudo para nos agradar e ganhar um cafuné ou biscoito”.
Na verdade, você anula o cachorro e faz dele uma extensão sua, um rabo que se abana. As relações humanas se tornaram competitivas, assustadoras e cheias de ciladas, o homem ficou amedrontado e resolveu estabelecer vínculos de afeto com animais não ambiciosos, que se satisfazem com aquilo que lhes é apresentado. Ficou mais fácil tratar bichos como pessoas e pessoas como bichos.
Para ter o cachorro abanando o rabo, seu dono faz o que for preciso. O bicho é como filho da casa e tem direito a tudo o que quiser, desde que não vire gente. Acredito que isso aconteça porque os bichinhos são mais facilmente adestrados, educados num regime de troca e condicionamento. A submissão do animal conforta seu dono. Todo e qualquer sentimento de liberdade está atrelado ao dono, que é o chefe da cadeia e enxerga a escravidão do cachorro como fidelidade absoluta.
Vontade própria é desacato a autoridade. Por isso é que o comportamento dos pit bulls acabou indo parar no legislativo. Quando um ou outro exemplar desta espécie mostra ou lembra que é cachorro e engole uma galinha, come um rato ou morde alguém, pelo motivo que for, é submetido a “torturinhas” chamadas de castigos ou adestramento, dependendo do grau de violência instintiva do animal e de seu dono.
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