Fotografia

Bafo (encurralado) de onça

O desmatamento, a expansão das cidades e a caça de pequenas presas estão cada vez mais colocando as nossas onças próximas de aglomerados humanos. Veja as imagens desses econtros.

Adriano Gambarini ·
16 de junho de 2007 · 19 anos atrás

Minha intenção era aproveitar o dia internacional do meio ambiente e falar um pouco a quantas anda a situação de nosso planeta, trazer fotos de diversas partes do mundo – China, Antártida, Amazônia e outros lugarzinhos que continuam a sofrer com problemas ambientais. Mas resolvi pegar o gancho de um acontecimento que trouxe à tona um velho assunto preocupante: o sufoco que os animais silvestres vêm passando com a expansão urbana. Nesta semana acompanhei mais uma vez o trabalho do Centro nacional de pesquisas para conservação de predadores naturais – CENAP/IBAMA. Na cidade de Extrema, divisa de São Paulo com Minas Gerais, um morador local estava sofrendo com a perda de galinhas para algum “gatuno”.

Acreditando que pudesse ser um cachorro (disse ele), montou uma armadilha e nela caiu uma onça-parda. A polícia florestal foi avisada e ela, obviamente, acionou o centro técnico. Veterinário e biólogos a postos, o bicho foi sedado, recebeu um chip subcutâneo, teve amostras de sangue tiradas, foi medido, pesado e solto num cinturão de mata não muito longe dali. Explicaram para o tal morador que provavelmente o animal voltaria já que aquela região era seu território. Comentaram da ilegalidade e do perigo da sua atitude em montar uma armadilha, pois se fosse um animal um pouco maior certamente teria se desvencilhado daqueles arames. E toda esta história aconteceu a menos de dois quilômetros do centro da cidade.

De acordo com a Conservation International, o Cerrado perde cerca de 3 milhões de hectares por ano, o que equivale a 2, 6 campos de futebol por minuto, taxa 10 vezes maior do que a Floresta Atlântica. E não vou nem citar a ‘menina dos olhos’ do mundo, a Amazônia, ou a ignorada Caatinga. Acrescente o êxodo rural para os grandes centros urbanos e sua conseqüente expansão, a proliferação de estradas, a caça de animais silvestres por aqueles que efetivamente não dependem disto como alimento, a necessidade natural do maior felino brasileiro de palmilhar um vasto território para sobreviver e pronto, tem-se o inevitável encontro. No caso da oncinha ‘mineira’ seu futuro foi garantido, pelo menos por enquanto – os policiais que participaram dessa captura noticiaram que há um mês atrás uma outra onça-parda fora atropelada na Rodovia Fernão Dias, não muito longe dali.

Nos últimos 12 meses, o CENAP registrou mais de 10 ocorrências de onças vistas e/ou capturadas próximas a cidades. Nos últimos 5 anos, foram quase 30 casos. Pode parecer pouco, não fosse o fato que estes felinos estão no topo de cadeia alimentar e possuem naturalmente uma baixa densidade populacional. Em agosto passado, na zona rural de Bragança Paulista, há 70 km de São Paulo, um morador encontrou uma outra onça-parda acuada em cima de uma árvore. Documentei também o trabalho do CENAP e caminhando por ali, num raio de 500 metros ao redor da casa, encontrei 3 armadilhas para pacas e tatus; carnívoro tem que comer e se não encontra suas presas naturais, vai buscar onde tem – a simples lógica da sobrevivência.

Mas talvez o caso mais trágico tenha sido das onças-pintadas encontradas – e mortas, na periferia de Corumbá, MT. Um casal com filhote juvenil utilizavam uma loca como abrigo na barranca do rio que beira a cidade. Antes que o IBAMA local e o CENAP fossem chamados, a infeliz tentativa da policia florestal de solucionar o problema causou a morte de um animal. Os técnicos então prepararam uma armadilha, e quando a outra onça estava para entrar, acidentalmente um policial disparou, quase atingindo o veterinário que esperava o momento certo para anestesiar. Depois de muitos esforços, conseguiram capturar a onça ferida, que veio a morrer por complicações cirúrgicas.

O filhote foi capturado e realocado em área natural. O alarmante desta história não está apenas nos procedimentos humanos, mas no fato de que até mesmo em Corumbá, considerada o ‘portal’ do Pantanal, esses felinos estão cada vez mais oprimidos pelas cidades. O fato é que a situação deste carnívoro, topo de cadeia alimentar, de importância vital para o equilíbrio natural das espécies, um dos animais mais imponentes e belos de nossos biomas (a emoção de encontrar uma onça em vida livre é algo que adjetivo nenhum pode descrever) têm minguado cada vez mais no peso do alicerce de um grande problema: o desmatamento. *

* terminei de escrever este texto às 9:30 h do dia 15/06. Ao meio-dia uma nova onça-parda foi capturada no telhado de uma casa, nos arredores de Ribeirão Preto, SP.

  • Adriano Gambarini

    Fotógrafo profissional desde 1991. Vencedor do Prêmio Comunique-se, é geólogo de formação, com especialização em história natural e espeleologia, autor de 20 livros e diretor de dezenas de documentários.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
24 de abril de 2026

Clima avança no papel, mas estados falham na execução, aponta estudo

Anuário mostra que, apesar de progressos, desigualdades entre estados, gargalos institucionais e falta de adaptação ampliam riscos e prejuízos diante de eventos extremos

Notícias
24 de abril de 2026

Conferência sobre fim dos fósseis aposta em “coalizão de ação” fora da ONU

Fora do formato das COPs, encontro aposta em coalizão de países para avançar na implementação da agenda climática

Reportagens
24 de abril de 2026

Destinação inadequada de lixo freia meta de biometano prevista para 2026

Com 3 mil lixões ativos, Brasil desperdiça 28 milhões de toneladas de lixo por dia que poderiam virar biometano se fossem corretamente destinados

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.