Reportagens

Madeira de qualidade com galhos secos

Grandes e pequenos produtores de pinhão já têm o que fazer com as grimpas que caem durante todo o ano. Há tecnologia para transformá-las em madeira ou briquetes.

Aldem Bourscheit ·
24 de junho de 2009 · 13 anos atrás

A maioria das matas com araucárias que sobreviveram ao ciclo madeireiro estão no Sul do país, mas um dos maiores produtores brasileiros de pinhão é Cunha. O município serrano a 230 quilômetros de São Paulo produz em média 800 toneladas por ano. As sementes chegam inclusive aos mercados do Paraná e de Santa Catarina, conforme a Secretaria Municipal de Agricultura.

O sistema de colheita é semelhante ao que a reportagem de O Eco encontrou na região de Painel, em Santa Catarina (veja aqui), com centenas de famílias dependendo das safras invernais para complementar a renda com a venda de sementes. A comercialização também é centralizada em atravessadores.

A produção se concentra em 240 das mais de 3.300 propriedades rurais e movimenta cerca de 280 mil reais por ano. Em Cunha, metade dos mais de 26 mil habitantes estão no campo, onde a atividade econômica mais forte é a pecuária leiteira.

Os produtores de lá também escalam as árvores para derrubar pinhas e têm recebido orientação da organização não-governamental Serra Acima para compra e uso de cadeirinhas, capacetes, mosquetões e outros equipamentos de segurança comuns ao rapel e ao montanhismo. Confira um vídeo aqui.

Matéria-prima natural

Crivados de folhas pontiagudas, os galhos secos da araucária são aproveitados pela indústria. Foto: saojoaquimonline.com.br.

Tanto Cunha quanto outros locais onde resistem matas com araucárias têm uma matéria-prima especial e gratuita: os ramos secos cheios de folhas que caem dos pinheiros. Chamado de grimpa ou grimfa, o material pode ser usado na produção de placas de fibra madeira ou de briquetes.

A primeira idéia foi patenteada em 2005 pelo casal Sílvio Moreira e Marli Bosquet. Em sua propriedade, em Quitandinha (PR), o gado não conseguia pastar sob o pinheiral pela enorme quantidade de grimpas, cheias de folhas pontiagudas. Conforme Moreira, o material cai da árvore praticamente seco e pronto para ser processado e transformado em painéis de alta qualidade. A madeira pode ser aproveitada na construção civil ou fabricação de móveis. “O produto não é novo, mas é um novo conceito de madeira, feita com material renovável e gratuito”, disse.

Uma primeira fábrica está planejada para os próximos meses em Campo Largo, no Paraná, com apoio de um empreendedor privado. O investimento inicial previsto é de R$ 1,5 milhão, fora o apoio da prefeitura local na construção de um barracão. Na região fica a Floresta Nacional de Assunguí, com 730 hectares e por volta de 600 mil pinheiros. A fábrica precisa de no mínimo 130 mil árvores fornecendo grimpas para garantir uma produção mensal de 14.400 painéis medindo 2,6 m x 1,20 m com quinze milímetros de espessura. A empreitada promete gerar 70 empregos diretos, em três turnos de trabalho.

“A madeira é mais densa que produtos semelhantes, além de ser resistente ao fogo e à água”, disse Beto Barbosa, assessor do projeto.

Seus inventores avaliam que é possível instalar unidades produtoras de madeira em vários pontos do país onde há matas com araucárias e estrutura para escoamento da produção.

Outra iniciativa veio da Pontifícia Universidade Católica no Paraná (PUC/PR). Nos laboratórios da instituição, foi desenvolvida uma tecnologia para transformar as grimpas em briquetes, espécie de lenha que pode ser aproveitada em residências, churrascarias, pizzarias e outros estabelecimentos. No processo, galhos de araucárias são triturados e processados junto com papel jornal. A mistura é prensada e formatada em barras de vinte por cinco centímetros. O invento ainda não foi produzido em escala industrial.

“Os briquetes apresentam boa queima e podem ser produzidos nas próprias fazendas, reduzindo a necessidade de lenha comum e aproveitando matéria-prima da própria região”, disse o engenheiro florestal Arnaldo Carlos Muller, professor da PUC/PR e coordenador do Instituto de Desenvolvimento Sustentável (IDS), de Curitiba.

Antes de iniciativas como essas, o destino certo das grimpas era o fogo ou apodrecer no meio da mata.

Um senhor alimento

Foto: Roberto Sousa Mrsdesign/Pixabay.

Fã de carteirinha dos pinhões, a nutricionista e mestranda em biotecnologia pela Universidade de Caxias do Sul (RS) Fabiane Michelon conta que as sementes ricas em fibras são ótimas fornecedoras de amido com baixo índice glicêmico, absorvido lentamente pelo organismo, proporcionando energia de alta qualidade. O alimento também é rico em vitaminas do complexo B, importantes para processos vitais do corpo humano. Em termos de minerais, em maior quantidade são encontrados ferro, cálcio e zinco. Michelon também explica que a melhor maneira de se preparar os pinhões é com um cozimento de uma hora em água fervente, com casca. Assim, substâncias antioxidantes e anticancerígenas migram às sementes. Bom apetite!

Saiba mais:
Parte 1 – O futuro nas sementes da araucária
Parte 2 – Colheitas e regeneração dos pinheirais

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo histórias sobre Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Comunidades Indígenas e ...

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