Reportagens

Um dia (mais ou menos) sem carro

Rio adere oficialmente ao Dia Mundial sem Carro. O prefeito andou de bicicleta e a disponibilidade de transporte público dobrou, mas pouca coisa mudou no trânsito da cidade.

Bernardo Camara ·
23 de setembro de 2009 · 14 anos atrás

Na frente assembléia legislativa, um grupo pedala em manifesto organizado pelo Partido Verde
 

Em sua primeira adesão oficial ao Dia Mundial sem Carro, em plena terça-feira, o Rio de Janeiro continuou o mesmo: com trânsito lento e muitos automóveis na rua. A melhora sensível no tráfego só aconteceu no Centro, onde o estacionamento foi proibido em 18 ruas, totalizando mais de 500 vagas inutilizadas. Nas outras partes da cidade, a marcha lenta predominou nos horários de pico.

Rafael Santiago, motorista do ônibus do Metrô que faz a integração entre os bairros de Botafogo e Gávea, na Zona Sul, fez sua primeira viagem às 5h20. Até largar o batente, não notou diferenças. “Está tudo igual. Nem o trânsito diminuiu, nem aumentou o número de passageiros”.

A percepção de Santiago se espalhou pela cidade, para a frustração dos que resolveram aderir à ideia. “Hoje estou indo de ônibus pois acho a iniciativa importante”, disse o engenheiro Ronaldo de Castro, que passou por algumas retenções no trajeto entre Jardim Botânico e Flamengo. “Se as pessoas não pensam coletivamente, fica difícil”.

Para dar vazão ao possível aumento de demanda, o transporte público planejou um esquema especial. Trens, metrô e ônibus tiveram sua frota aumentada. Porém, as concessionárias não tiveram trabalho dobrado.

Discursos sobre duas rodas

Estacionamento de prédio comercial no Centro: pessoas não deixaram carro em casa
 

Se a população não deixou o carro em casa, a terça-feira foi o dia das autoridades se prestarem a esse papel. O prefeito Eduardo Paes vestiu uma bermuda, botou o capacete e pedalou por mais de uma hora para chegar ao seu gabinete, em Botafogo. “Estamos mal habituados ao uso de carro”, comentou, prometendo repetir o “gesto simbólico” mais vezes.

O governador Sérgio Cabral também deu suas voltas sobre duas rodas. E o deputado estadual André Lazaroni (PV) reuniu um grupo de ciclistas para rodar pelo Centro até as escadarias da Assembleia Legislativa, onde preside a Comissão de Meio Ambiente. “O que estamos fazendo é uma maneira lúdica de proporcionar uma relação amigável entre motoristas, ciclistas e pedestres”, explicou. “Temos que mudar nossos hábitos”.

Apesar dos discursos, a realidade não é das melhores para os cariocas que optam por deixar o automóvel na garagem. Há dois meses, o economista Alex Galvão faz o trajeto Catete – Centro de bicicleta. Leva pouco mais de dez minutos. Mas tem que se arriscar entre os carros. “As ciclovias estão mais pela zona Sul”, diz. Para ir a outros cantos, o caminho é pela rua.

O secretário municipal de Meio Ambiente, Carlos Alberto Muniz, demonstrou que a pasta está disposta a entrar na causa. E sem falar em prazos, aproveitou a ocasião para anunciar que os ciclistas devem receber novas pistas. “As ciclovias ganharão mais 200 quilômetros, entre as zonas Oeste, Portuária e Sul”.

Difícil adaptação


Nas ruas do Centro, o estacionamento foi proibido. Mais de 200 multas foram aplicadas

O Centro foi o ponto principal do Dia sem Carro no Rio. Sem as filas duplas formadas pelas vagas de rua, o trânsito fluiu melhor. A Guarda Municipal aumentou seu efetivo na região e colocou alguns de seus agentes para circular de bicicleta. Mas mesmo com o esquema de orientação, a secretaria especial de Ordem Pública rebocou mais de 90 veículos que pararam em locais proibidos. Foram aplicadas quase 200 multas.

Na praça Mario Lago, órgãos da prefeitura e do estado montaram barracas para distribuir folhetos educativos e oferecer serviços de saúde. Por ali, aconteceram algumas atividades culturais.

Em Copacabana, voluntários davam dicas sobre como se locomover de bicicleta pela cidade. A prefeitura também inaugurou a “Zona 30”, que estabelece o limite de 30 km/h para o tráfego de veículos nas vias secundárias do bairro.

Para Zé Lobo, presidente da ONG Transporte Ativo, as iniciativas valeram a pena. Mesmo sem ter sensibilizado muita gente. “Com a adesão da prefeitura, o evento toma um porte maior. Ano que vem todo mundo já vai saber do que se trata”, acredita. “Já é válido só por ter feito as pessoas pensarem novas formas de se deslocar”.

Outros lugares

Nas principais capitais do Brasil, o trânsito também permaneceu lento ao longo do dia. Assim como no Rio, alguns políticos de outras cidades usaram transporte alternativo. De Brasília, em cima de uma bicicleta, o ministro das Cidades, Marcio Fortes, prometeu investimentos na construção de ciclovias pelo país, mas não falou em números. A prefeitura de Curitiba interditou 15 ruas da região central, porém, os transtornos no tráfego fizeram com que elas fossem liberadas três horas antes do previsto. Na capital paulista, a comum lentidão dos veículos não se alterou. Por todo o país, ativistas fizeram campanhas para conscientizar a população. O Dia Mundial Sem Carro foi criado em 1998, na França. Dois anos depois, vários países europeus seguiram o mesmo caminho. Enquanto o Brasil tenta encaixar a proposta em seu calendário, no outro lado do oceano a idéia já se expandiu, se tornando na Semana Europeia de Mobilidade.

* Fotos por Bernardo Camara

Atalhos
Transporte Ativo 
Semana Europeia de Mobilidade 

  • Bernardo Camara

    Bernardo Camara é jornalista formado pela PUC-Rio. Desde 2007 dedica-se a temas ambientais e de direitos humanos. Viveu por 4...

Leia também

Salada Verde
23 de fevereiro de 2024

Justiça Federal impõe mais de R$ 316 milhões em indenizações por desmatamento ilegal

Infrações ambientais foram identificadas pelo MPF por meio do Amazônia Protege, projeto que utiliza monitoramento por satélite para responsabilizar os atores dos desmatamentos ilegais

Notícias
23 de fevereiro de 2024

MPF no Acre arquiva denúncia da CPI das ONGs contra servidores do ICMBio

Servidores do órgão foram acusados de abusos contra moradores da Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre; para procurador, acusações são “genéricas e sem fato concreto”

Notícias
23 de fevereiro de 2024

Antas “avisam” pesquisadores sobre contaminação humana por agrotóxicos no MS

Além de agrotóxicos como glifosato, moradores do sudeste do estado também apresentaram altos índices de metais no corpo. Antas atuaram como sentinelas

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.