Desastres como os ocorridos em Angra dos Reis (RJ) e Santa Catarina, provocados por chuvas mais intensas e ocupação irregular do solo, são recorrentes no país por falta de uma cultura de prevenção e proteção civil. Essa é a principal conclusão do livro Sociologia dos Desastres: construção, interfaces e perspectivas no Brasil. A obra é baseada em análises realizadas desde 2003 pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres (Neped) da Universidade Federal São Carlos e reúne artigos de doze especialistas, focados nas relações entre desastres, direitos humanos, defesa civil, dimensões políticas e institucionais.
A publicação ressalta que um quarto dos municípios brasileiros são afetados por desastres relacionados a chuvas e secas a cada ano, e que nos últimos sete anos desastres têm sido verificados nos mesmos estados e municípios. “Entre 2003 e 2007, observamos em estudos de caso que os mesmos locais e as mesmas famílias haviam sido atingidas diversas vezes. Tudo se repete periodicamente, com as mesmas características e os mesmos prejuízos. E eventualmente em situação pior, já que pessoas que mal tiveram tempo para se recuperar são atingidas novamente”, afirmou Mariana Siena, uma das autoras, conforme a agência Fapesp.
Segundo ela, há estreita relação entre desigualdade social e exposição a riscos. “Os fenômenos naturais, ainda que extremos, não são desastres. Entendemos por desastre uma combinação da ameaça natural com a alta vulnerabilidade. É o que temos visto no caso dos terremotos no Haiti. O país tem grande vulnerabilidade econômica, social e institucional dos mais diversos matizes. Quando ocorre um terremoto, nesse caso temos de fato um desastre”, explicou. “Todos são atingidos. Mas quem tem mais poder aquisitivo dispõe também de mais facilidade para suplantar essas adversidades, reconstruir o que foi destruído e garantir a prevenção para que o desastre não se repita”, comentou.
Praticamente todos os estudos do Neped mostram que no Brasil não há uma cultura relacionada à prevenção e à proteção civil em relação a desastres. E a tragédia recente de Angra reforça o fato de que os órgãos públicos brasileiros têm dificuldade para se adiantar e reagir aos desastres. “Se há fatores que caracterizam uma ameaça, é preciso preparar a população. E, após o resgate, é preciso buscar maneiras de reabilitar a população imediatamente e fazer uma reconstrução resiliente”, disse Mariana. “A falta de prevenção é generalizada e o ente público está sistematicamente ausente. As lições aprendidas com as falhas na prevenção quase nunca são incorporadas”, afirmou Mariana.
O livro tem distribuição gratuita. Mais informações pelo e-mail [email protected]
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