Dez da manhã em São Paulo, seis da manhã em Phoenix, onze da noite em Sydney. Nesses e em vários outros fusos horários pelo mundo, nós e mais de 20 jovens pesquisadores nos reunimos periodicamente, apesar das agendas apertadas e rotinas tão diversas. Um propósito inicial uniu nosso grupo: promover transformações para um mundo mais sustentável e justo por meio da transdisciplinaridade. Mas o que realmente nos motivou a manter nosso trabalho foi o carinho, afeto e respeito que cultivamos uns pelos outros.
Nosso coletivo internacional é cultivado por relações de amizade, e vem se consolidando enquanto uma comunidade de prática chamada “Transdisciplinaridade para Mudanças Transformadoras”. A partir da nossa experiência como membros dessa comunidade, abordamos, aqui, o tema da transdisciplinaridade, e refletimos sobre como podemos capacitar pessoas para colocá-la em prática, cuidando uns dos outros e da natureza.
A transdisciplinaridade e sua importância para mudanças transformadoras
O conceito de transdisciplinaridade surgiu na década de 1970, e já foi adotado em diferentes áreas, como educação e saúde, ganhando relevância nas ciências ambientais e ciências da sustentabilidade.
Na pesquisa transdisciplinar, os conhecimentos científicos de diferentes disciplinas, como ecologia, geografia, e antropologia, são integrados para entender um mesmo problema, processo conhecido como interdisciplinaridade. Além disso, a transdisciplinaridade requer diálogo entre a ciência e outros sistemas de conhecimento, como os conhecimentos tradicionais, indígenas e técnicos.
Nessa abordagem, os atores não acadêmicos – comunidades tradicionais, ONGs, tomadores de decisão, entre outros – são incluídos em todo o processo de pesquisa, tornando-o mais justo e diverso. Essas pessoas são diretamente afetadas pelos problemas estudados, e seus saberes são essenciais para entendê-los. O foco dos projetos são problemas concretos, e a ideia é co-construir conhecimentos que ajudem as pessoas a agir e solucionar estes problemas, promovendo mudanças socioambientais. Esse tipo de conhecimento é essencial para enfrentarmos as crises complexas que afetam o oceano.
A transdisciplinaridade tem sido considerada por pesquisadores e profissionais da sustentabilidade como uma abordagem adequada de pesquisa e ação para lidar com o cenário atual de policrise. Enfrentamos, hoje, diversos problemas ecológicos e sociais interconectados, que afetam populações humanas e não humanas em todo o mundo. Mudanças climáticas, perda de sociobiodiversidade e branqueamento de corais, entre outros desafios complexos colocam em xeque a segurança da humanidade e de outras formas de vida.
Acreditamos que essas crises são causadas justamente por uma desconexão das pessoas entre si e com a natureza: sociedades modernas exploram os recursos naturais de forma predatória, e o fazem enquanto oprimem outros povos. A transdisciplinaridade é uma abordagem que faz frente a essa desconexão por meio de processos participativos e engajados com a sociedade, trazendo alternativas para futuros mais sustentáveis .
A Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), órgão das Nações Unidas que avalia a biodiversidade e sua relação com o bem-estar humano, reconhece a importância desses princípios. Coordenada atualmente por um pesquisador de ecossistemas marinhos, David Obura, a IPBES confirma que precisamos de inclusão, justiça e diversidade de conhecimentos se quisermos enfrentar os desafios socioambientais e trazer mudanças de fato transformadoras.

Capacitando pesquisadores para a transdisciplinaridade
Produzir conhecimento de forma diversa, inclusiva e aplicada, como na abordagem transdisciplinar, exige uma preparação para além da formação acadêmica convencional. É preciso compreender diferentes disciplinas, mas também desenvolver habilidades de facilitação, construção de parcerias e inclusão de pessoas de diversos setores e origens de forma ética. Além disso, é necessário articular os conhecimentos desenvolvidos para que possam ser aplicados à realidade.
De maneira geral, cursos de graduação e pós-graduação brasileiros na área ambiental ainda promovem pouco esse tipo de pesquisa. Com uma abordagem predominantemente disciplinar e acadêmica, os alunos não são capacitados para fazer projetos interdisciplinares e em diálogo com a sociedade. Quem se interessa pela transdisciplinaridade, como nós, precisa encontrar (ou criar) espaços de formação extracurriculares.
Um desses espaços foi a Escola São Paulo de Ciência Avançada em Transdisciplinaridade para Mudanças Transformadoras (ESPCA Transdisciplinaridade), da qual participamos. Financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), ela foi coordenada por pesquisadoras da Unicamp e USP, e ocorreu em abril de 2024, na cidade de São Luiz do Paraitinga, SP. Durante 10 dias, 80 pessoas de dezenas de países estiveram imersas em atividades sobre o tema com acadêmicos, profissionais e lideranças comunitárias, além de participar de visitas a iniciativas locais, atividades em grupo e momentos de socialização.

Atraídos a esse evento pelo interesse comum em pesquisa socioambiental e novas formas de produzir conhecimento, acabamos nos conectando por outros fatores. A partir do compartilhamento de nossas histórias, de mergulhos em cachoeiras geladas e de danças coletivas ao ritmo do maracatu, cultivamos carinho e desenvolvemos laços de amizade.
Propagando ondas de afeto e transformação
Durante a ESPCA Transdisciplinaridade, iniciou-se uma aliança afetiva. Ailton Krenak chama de alianças afetivas aquelas que não se baseiam em interesses imediatos, mas sim na continuidade de relações no longo prazo para construções coletivas. É assim que enxergamos nossa comunidade de prática, que se manteve ativa e vem tendo desdobramentos importantes.
Um desses desdobramentos foi a produção coletiva de um artigo acadêmico (em revisão para publicação) sobre a saúde mental de pesquisadores transdisciplinares em início de carreira. Afeto e respeito têm o poder de abrir caminho para conversas profundas e vulneráveis, e o ambiente da ESPCA Transdisciplinaridade proporcionou isso. O compartilhamento de experiências nos fez identificar a necessidade de discutir saúde mental e pensar estratégias coletivamente. Produzir esse artigo sobre um assunto delicado foi surpreendentemente prazeroso, e esperamos que o que aprendemos juntos se propague, dando suporte a outros praticantes de transdisciplinaridade e ajudando a transformar sistemas acadêmicos.
Colaboração leve e prazerosa geralmente gera mais colaboração. Em 2025, organizamos uma oficina durante uma conferência sobre transformações socioambientais na África do Sul. Nessa oficina, convidamos os participantes a refletir sobre como podemos construir comunidades de acadêmicos e não acadêmicos que trabalham juntos para promover transformações em suas realidades. Nessa reflexão, ressaltamos a relação com seres não humanos, ou seja, a importância de considerar as necessidades de rios, florestas, montanhas, entre outros.
Como nossa primeira atividade formal enquanto grupo, esse momento foi uma oficialização da nossa comunidade. A discussão gerou outro artigo coletivo, também em revisão, e esperamos que nossas reflexões sobre a inclusão de pessoas não acadêmicas e a empatia com seres não humanos inspire outras comunidades.
Cuidar das relações para cuidar do planeta
Assim, para avançarmos e transformarmos a ciência na Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030), olhar para quem produz os conhecimentos é tão importante quanto olhar para o próprio sistema de produção. A transdisciplinaridade é um convite à criação de alianças e valorização das relações nessa produção de conhecimento. Nestes dois anos, nosso grupo tem tentado colocar esse convite em prática. Nossa experiência nos ensinou que priorizar a construção de afeto e empatia e cultivar alegria compartilhada torna o trabalho não só mais prazeroso, mas possível.
Esses princípios são essenciais para qualquer trabalho que se proponha a transformar o que temos em algo melhor. Assim, nosso apelo aqui é para que os espaços acadêmicos e a formação de pesquisadores, transdisciplinares ou não, passem por transformações de dentro pra fora. Que seja priorizada a construção de relações sustentáveis, baseadas no afeto, cuidado e respeito, para além da produção acadêmica.
É preciso investir em transformações curriculares e expandir as habilidades ensinadas aos alunos. Mas acreditamos que focar na construção de espaços de conexão, tanto com parceiros acadêmicos como não-acadêmicos, é o primeiro passo ao nosso alcance para lidar com os grandes desafios impostos pelos desafios socioambientais do nosso tempo.
Consideramos que é possível, através da empatia e da criação de redes de afeto e apoio, superar as muitas camadas de desconexão (humano-natureza, academia-sociedade, entre disciplinas, etc) e abrir caminhos para mundos possíveis além da policrise.
Para saber mais
IPBES (2024). Summary for Policymakers of the Thematic Assessment Report on the Underlying Causes of Biodiversity Loss and the Determinants of Transformative Change and Options for Achieving the 2050 Vision for Biodiversity of the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services. IPBES secretariat, Bonn, Germany.
Lang, Daniel J. e colaboradores. Transdisciplinary research in sustainability science: practice, principles, and challenges. Sustainability Science, v. 7, n. S1, p. 25–43, fev. 2012.
Merçon, J. (2021). Comunidades de aprendizaje transdisciplinarias: Cuidando lo común. DIDAC, (78 JUL-DIC), Article 78 JUL-DIC.
As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Funbio lança novo edital para apoiar pesquisas de campo
Iniciativa faz parte do programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro, e apoia pesquisas de campo para estudantes de mestrado e doutorado →
Copa do Mundo das Áreas Protegidas: Grupo F
O grupo F reúne países com trajetórias distintas no futebol e na conservação. Quem leva vantagem quando o assunto são áreas protegidas? →
Quando o mar avança mais rápido que a Justiça Climática
Comunidades tradicionais que vivem na Ilha do Cardoso, em São Paulo, agora lidam com o avanço do mar, eventos extremos e novas tratativas para mitigação e adaptação →
