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População de Caetité reclama de urânio

Moradores da cidade na Bahia protestam contra mineração de combustível que é utilizado na geração de energia nuclear

Celso Calheiros ·
23 de maio de 2011 · 11 anos atrás
2 mil moradores participaram da vigília. Foto: Silvano Silva/Rádio Educadora de Caetité
2 mil moradores participaram da vigília. Foto: Silvano Silva/Rádio Educadora de Caetité
A população da pequena cidade baiana de Caetité (a 757 quilômetros de Salvador) está cada dia mais desconfiada das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que extrai urânio no município. As suspeitas começaram em 2008 e atingiram seu nível mais alto na noite do domingo (dia 15 de maio), quando cerca de 2 mil pessoas em vigília barraram nove carretas carregadas, que seriam descarregadas nas instalações da mina. A população temia que os contêineres guardassem lixo radioativo, resíduo das usinas em Angra dos Reis.

O desconforto começou depois que foi comprovada uma denúncia, feita inicialmente pelo Greenpeace, em 2008, de que algumas as fontes de água população estavam contaminadas com radioatividade. A partir daí, a extração de urânio natural passou a ser malvista.

Caminhão levava 90 toneladas de urânio e foi parado por manifestantes.
Caminhão levava 90 toneladas de urânio e foi parado por manifestantes.
Nota da INB tentou esclarecer a população. O texto afirmava que a carga é concentrado de urânio, semelhante ao extraídos em Caetité. O carregamento pesa 90 toneladas, estavam em poder da Marinha do Brasil e foi cedido para a INB honrar compromissos com vendas no exterior. Como o urânio concentrado vai viajar de navio, a carga precisa ser reembalada para exportação e esse processo só pode ser feito dentro da norma em Caetité, única mina de urânio em atividade no Brasil. “Não há qualquer fundamento na notícia, divulgada por alguns, de que se trata de lixo nuclear. A população pode ficar tranquila, porque este material é urânio natural, o mesmo que a INB produz em Caetité”, assegura presidente da empresa, Alfredo Tranjan Filho, na nota.

Ânimos tensos precisaram relaxar para os novos desdobramentos. O prefeito José Barreira, um conhecido defensor da INB, articulou a criação de uma grande comissão, com vários setores interessados: vereadores, secretário de Meio Ambiente, ONGs, Comissão Pastoral da Terra, Ministério Público, INB, Ibama e sindicato dos trabalhadores. O destino da carga estava em pauta. “A desmobilização não é rápida, mas acreditamos que tudo ficará resolvido com a análise da carga que será feita pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), Ministério do Trabalho e Ibama”, disse. Enquanto isso, a carga foi estacionada no pátio do 17º Batalhão de Polícia Militar, no município vizinho de Guanambi. “Não queremos essa material aqui”, reclamou o prefeito Charles Fernandes. “Guanambi não tem nada haver com o problema”, declarou, comprovando que a desconfiança está se alastrando.

Depois de análises feitas, novas decisões que foram acatadas por todos. A carga foi transferida do quartel para as instalações das INB, em Caetité. Decidiu-se analisar com calma o teor de radioatividade do concentrado de urânio. Se fosse comprovado que era igual ao verificado no dia a dia dos mineiros, ele seguiria para reembalagem. Se a radioatividade foi maior, a carga retorna para as instalações da Marinha do Brasil.

Resta uma população em sobreaviso. Mesmo depois de a carga ser liberada pelo pessoal de fiscalização do governo, o agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Gilmar Ferreira dos Santos conta que as medições dos níveis de radiação feitas em paralelo, “por um médico radiologista com um contador geiger” apontaram níveis de radiação a 15 metros da carga superior ao verificado nas proximidades da mina. Outro indício do clima de desconfiança. Um carro de outra cidade parou e o motorista perguntou pelo padre Osvaldino. Foi o suficiente para se temer pela segurança de um dos críticos da exploração de urânio.

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