Pesquisadores de 14 instituições brasileiras e internacionais entregaram ao Vaticano uma carta alertando para os riscos socioambientais, sanitários e humanitários relacionados à pavimentação da BR-319, à mineração de potássio em Autazes (AM) e ao enfraquecimento do licenciamento ambiental no Brasil.
O documento foi entregue pessoalmente em 18 de junho, em Roma, ao Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral pelo pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), Lucas Ferrante. A iniciativa contou com a articulação do delegado socioambiental Agnaldo Junior, ligado aos Jesuítas e à Conferência dos Provinciais da América Latina e do Caribe (CPAL).
Na carta, os cientistas pedem que a situação seja levada ao conhecimento do Papa Leão XIV e defendem que as decisões sobre a Amazônia sejam pautadas por evidências científicas, prudência e justiça socioambiental.
Os signatários argumentam que a combinação entre a flexibilização das regras ambientais, a expansão da infraestrutura e o avanço da mineração cria um cenário de vulnerabilidade para povos indígenas, comunidades tradicionais e para a própria saúde pública global.
A carta foi assinada por pesquisadores de instituições como a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Instituto Butantan e Fundação Getulio Vargas (FGV).
Os autores também são responsáveis por estudos publicados em periódicos científicos internacionais, entre eles a revista Science, que associam a expansão da infraestrutura na Amazônia ao aumento dos riscos biológicos. Na avaliação dos pesquisadores, a combinação entre a flexibilização das regras de licenciamento ambiental, a expansão de obras de infraestrutura e o avanço da mineração cria um cenário de vulnerabilidade sem precedentes na Amazônia.
O documento destaca que a BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), atravessa uma das regiões mais preservadas da floresta amazônica e pode impactar diretamente 69 comunidades indígenas pertencentes a 27 povos.
Já a mineração de potássio em Autazes, segundo os autores, avança sobre áreas historicamente ocupadas pelo povo Mura. Os pesquisadores argumentam que esses projetos não devem ser analisados exclusivamente sob a perspectiva do desenvolvimento econômico.
Segundo a carta, as iniciativas podem impulsionar o desmatamento, estimular atividades ilegais, fragilizar a segurança territorial e comprometer a sobrevivência de populações que historicamente atuam na conservação da floresta.
De acordo com o documento, a abertura de novas fronteiras de desmatamento, infraestrutura e mineração na Amazônia Central pode favorecer a emergência e a disseminação de novos patógenos.
Os pesquisadores afirmam que ecossistemas ainda pouco estudados abrigam comunidades microbianas associadas a genes de virulência, resistência antimicrobiana e mecanismos de transferência genética. A perturbação desses ambientes, segundo eles, poderia criar condições favoráveis para o surgimento de novos surtos epidemiológicos.
No texto, os autores classificam esse cenário como a abertura de uma “caixa de Pandora epidemiológica”, capaz de afetar populações indígenas, centros urbanos e a saúde pública global.
Críticas à nova lei ambiental
A carta também pede a revogação da Lei nº 15.190/2025, conhecida como a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental.
Os pesquisadores argumentam que a legislação enfraquece salvaguardas socioambientais consideradas essenciais e amplia a vulnerabilidade de povos indígenas, comunidades tradicionais e territórios amazônicos.
Na avaliação dos autores, a norma apresenta elementos de inconstitucionalidade por reduzir mecanismos de proteção previstos para populações historicamente vulnerabilizadas. Ao recorrer à Santa Sé, os pesquisadores citam os princípios da encíclica Laudato si’ e defendem que a crise amazônica expressa a relação entre a degradação ambiental e a desigualdade social.
“A floresta ameaçada não é um espaço vazio. É território de vida, cultura, espiritualidade, memória, segurança alimentar, saúde pública e proteção climática”, afirmam.
Além do envio da carta, o grupo solicitou uma audiência com o cardeal Michael Czerny e pretende apresentar pessoalmente os resultados das pesquisas ao Vaticano. Para os cientistas, a participação da Igreja Católica pode contribuir para ampliar a mobilização internacional em defesa da Amazônia, dos povos indígenas e da saúde planetária.
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