De Paulo de Tarso Zuqui
Querida Maria Tereza,
Antes de mais nada parabéns pela clareza e oportunidade da sua abordagem dos temas. Pena que só agora conseguir ler seu artigo. Concordo plenamente com todos os pontos levantados e da necessidade de enfrentarmos a questão do controle de espécies invasoras e da carência das discussões chegarem ao grande público de forma a explicar o problema e as pessoas poderem se posicionar.
Faço, porém, um reparo sobre as notícias que vem sendo veiculadas quanto à garça em Noronha e o problema com os aviões. Há uma necessidade de reduzir o número de garças se elas estão causando esses problemas. Porém, creio que para tornar politicamente palatável a divulgação enfatiza que são garças africanas, estrangeiras, invasoras. Essa espécie é emblemática porque foi uma das primeiras em que conseguimos documentar sua expansão, natural, em escala do planeta. Há mais de 100 anos as primeiras garças vaqueiras chegaram ao Caribe e dali espalharam-se pelas Américas, desde o Canadá até o sul da Argentina e Chile. Alcançaram também várias ilhas oceânicas ao redor do mundo e sempre por suas próprias asas, colonizando algumas e sem sucesso em outras. Facilitamos essa expansão ao criarmos pastagens em áreas de florestas, dando-lhe habitat. De forma alguma podemos colocá-la ao lado dos gatos, ratos, teiús e mocós de Noronha, levados para lá voluntária ou involuntariamente. Aliás, ali são registrados indivíduos de várias espécies européias, africanas e asiáticas, geralmente migrantes de longo curso que atravessaram o Atlântico em tempestades. Algumas hoje compõem a fauna de Noronha rotineiramente.
Também me parece que outra justificativa usada para o controle seria a pretensa pressão contra o lagarto endêmico de Noronha Mabuya mabuya. Certamente a garça alimenta-se dele, como de outros vertebrados pequenos, mas a profusão populacional e de ambientes ocupados pelo lagartinho noronhense torna impossível a garça representar uma ameaça para o mesmo nos seus atuais níveis.
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