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O mato e os veados

O problema das bancadas que votaram no Código "Anti-Florestal" não é com a gestão ambiental. É com o pavor que sentem da possibilidade de vislumbrar um Brasil mais moderno.

2 de junho de 2011 · 15 anos atrás
  • José Truda Palazzo, Jr.

    José Truda é jardineiro, escritor, consultor em meio ambiente especializado em conservação marinha e tratados internacionais, e indignado.

O bom Allah e os leitores mais assíduos de ((o))eco são testemunhas de que este colunista não nutre particular afeto pela trajetória de Dilma Rousseff, responsável maior pela maquinação das políticas anti-ambientais do reinado lullesco que prossegue. Dados os acontecimentos recentes na capital de nossa combalida Banânia, forço é reconhecer, entretanto, que outra força hercúlea se alevanta na Esplanada dos Ministérios, entrincheirada naquele edifício cujas fluidas linhas não ocultam sua verdadeira natureza de caverna de pitecantropos (se me perdoam a comparação nossos ancestrais hominídeos): o Congresso Nacional.

Poucas pessoas teriam paciência para acompanhar ao vivo a votação recente do Código Anti-Florestal. Quem o fez, entretanto, foi brindado com uma rara visão de por que as normas ambientais brasileiras estão fadadas ao enfraquecimento, bem como o estão quaisquer normas legais destinadas a fazer desta coisa a que chamamos “país” algo menos retrógrado, violento, corrupto e sujo.

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“Ou nós, a microscópica minoria esclarecida nesse mar de alienados e pedintes, nos unimos para construir uma sociedade moderna, sustentável, diversa e libertária, ou nem a biodiversidade nem a liberdade individual terão qualquer futuro.”

Durante o encaminhamento da votação ouviu-se de tudo, principalmente mentiras e bobagens, regadas a perdigotos das bocas furibundas dos deputados da bancada financiada pelos fazendeiros e especuladores rurais, principalmente os do Sul. Os maus gaúchos foram verdadeiros expoentes do teatrinho, vociferando contra os “interesses estrangeiros” e choramingando pelos “pequenos agricultores” (outros, interessados em manter sua fachada falsa de vanguarda, cuspiram nos eleitores apenas com seu voto “sim” à devastação). Perfeita expressão do fascismo pós-moderno que, à sombra do besteirol anti-ambiental dos discursos de Lulla, floresceu em Brasília impune, permitindo que os debates sobre gestão ambiental sejam feitos tão somente de mentiras e demagogias sobre a pobreza e o “pogreço”.

O esclarecimento que me faltava, entretanto, sobre como chegamos a esse ponto, veio logo depois, com as intervenções extemporâneas das ditas bancadas “católica” e “evangélica” para desancar o Ministério da Educação e sua iniciativa anti-homofobia. Nas palavras de contumazes parasitas do dinheiro público, ficou tudo claro: o problema dessa gente não é com a gestão ambiental. É com o pavor que sentem da possibilidade de vislumbrar um Brasil mais moderno.

Um Brasil que respeite o meio ambiente e busque alternativas racionais de desenvolvimento, eduque sua população para as ciências, artes, História e cidadania, combata a discriminação sexual, religiosa ou política, e penalize a ineficiência e a corrupção do Estado são, como um todo, anátema para um Congresso Nacional e uma classe política cuja raison d´être é justamente o atraso, a falsidade, o preconceito, a ignorância, o desconhecimento. A corja que defende o “dezenvorvimento” com geração de energia suja e destruição da biodiversidade é a mesma que quer seguir agredindo (verbal e fisicamente) os homossexuais (mesmo que uma semana depois desse episódio na Câmara dos Deputados um ex-deputado federal dos “evangélicos” tenha sido preso em Santa Catarina por pedofilia contra crianças pobres, e aqui em Porto Alegre abundem as versões sobre visitas de políticos “de bem” aos travestis da avenida Farrapos para satisfazerem suas, well, necessidades ocultas).

A canalha que impede a adoção de práticas sustentáveis como política nacional para a agricultura e a indústria é a mesma que defende as licitações fraudadas, a ausência de transparência, o jabá abjeto das grandes corporações. Como aprendemos em Ecologia Básica, assim na Biosfera planetária como na Ladrosfera de Brasília, tudo está interligado. Para a choldra parlamentar majoritária, as fabulosas, inestimáveis florestas nativas do Brasil são apenas “mato” a ser derrubado para vender soja barata a chinês; os cidadãos que têm orientação sexual diferente da deles (ou que eles não têm coragem de assumir), apenas “veados” a serem espezinhados, intimidados e escondidos das crianças.

Sempre fui daqueles que achava que a defesa da Natureza deveria seguir rumo próprio, sem se misturar muito com os demais ditos “movimentos sociais” pra não perdermos identidade, espaço ou seriedade. Ao ver e ouvir que gama de idéias típicas de tarados e ordinários que temos hoje representadas no Congresso Nacional, mudei de opinião em definitivo. Ou nós, a microscópica minoria esclarecida nesse mar de alienados e pedintes, nos unimos para construir uma sociedade moderna, sustentável, diversa e libertária, ou nem a biodiversidade nem a liberdade individual terão qualquer futuro. 

Lulla e Dilma, supostamente da “isqêrda”, criaram com seu discurso – e sua prática de oito anos de “alianças” com o que há de pior na política nacional – essa quase unanimidade brasiliense contra um Brasil moderno e sustentável, e seu Frankenstein do atraso, agora dominado por seus “aliados” da extrema-direita corporativa e pseudo-religiosa, ameaça fugir a todo controle social. É hora de darmos um basta a tudo isso. Aos “comunistas” vendidos ao latifúndio devastador, aos “religiosos” cúmplices da corrupção com seu discurso homofóbico santarrão, aos “líderes de partido” que mais se assemelham a líderes de quadrilha. Não sobrará árvore em pé, nem liberdade individual assegurada, se não nos unirmos para botar pra correr dos parlamentos e estruturas de governo quem prega, com a mesma desfaçatez, o ódio ao “mato” e aos “veados”.

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